“Pois na verdade nada há de mais miserável que o homem de todos os seres que vivem e rastejam em cima da terra”. Essa frase de Zeus sublinhada na obra Ilíada do poeta Homero não saía de minha mente. Eu estava passeando de carro, às quatro horas da manhã, com minha cadelinha Minie, refletindo sobre a dureza da vida e as inquietudes, quando cheguei ao Centro Social Urbano (CSU) no bairro do Parque Dez, em Manaus, e encontrei duas senhoras que estavam servindo comida aos animais e às pessoas em situação de rua. 

A vida é frágil, é finita, cheia de dores e de frustrações, mas o sentido que damos a ela faz diferença, mesmo nas limitações existenciais e no viver transitório. Não é novidade que homem se acha superior a outros seres vivos, arrogante e com desejos infinitos. E se define como portador de uma razão e de uma consciência deslumbrada capaz de acreditar que é o dono do planeta Terra. 

Quando Zeus expressa que “nada há de mais miserável que o homem de todos os seres”, ele está relacionando os homens com os deuses, com os outros seres, distinções em que os deuses são imortais e o homem tem consciência de sua situação e busca o impossível, deixando de viver o mundo real, produzindo inquietudes e afetos nem sempre louváveis. Zeus foi duro. Acertou sobre a grande fragilidade humana. Porém, ele generalizou. Existem membros da espécie humana que possuem atributos que melhoram a sua vida e as dos outros, mesmo com dor e consciência da vida breve. 

As duas senhoras, que todos os dias servem alimentos aos animais e aos moradores em situação de rua nas madrugadas do CSU do Parque 10, são pessoas extraordinárias que promovem amor ao próximo e demonstram gratidão pela vida. E a compaixão pode melhorar vidas de quem dá e de quem recebe. É fácil se perder em problemas existenciais, mas devemos lembrar de que há pessoas lutando por coisas muito mais difíceis. 

No mesmo dia, saí de casa para resolver um problema do carro. Um amigo indicou um especialista em radiadores, no bairro da Praça 14 de Janeiro. Um cidadão sorridente me acolheu, resolveu o problema e ainda contou algumas histórias engraçadas da vida.  O ambiente era só risos. Entrou no estabelecimento um homem jovem, era proprietário de outra oficina. Ambos ficaram conversando sobre uma doença maligna, bem mortal.

O senhor que cuidou do meu carro fazia tratamento de câncer e o outro colega dele tinha um filho de onze anos com leucemia.  Estavam lá trabalhando, sorrindo e levando a vida com dor e esperança. E eu, apenas preocupado com o ar condicionado do automóvel. Uma inquietude até boba. Um detalhe numa vida única de amor possível e de sonhos. Depois, fui para casa, junto com a Minie, dormir o sono necessário. 

Naquele dia, entendi as palavras de Zeus.  A vida é frágil e também é preciosa. O homem não é um anjinho, mas há pessoas capazes de transcender a nossa própria fraqueza e questionar o sentido real da existência humana na Terra.

Carlos Santiago – Sociólogo, Cientista Político, Filósofo e Advogado

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