O mundo contemporâneo construiu sua prosperidade sobre cadeias globais de suprimentos altamente eficientes, porém perigosamente frágeis. Entre os principais gargalos dessa engrenagem estão dois pontos geográficos cuja relevância transcende a geografia: o Estreito de Ormuz e o Estreito de Taiwan.

Ambos funcionam como válvulas críticas do sistema econômico global, um controlando o fluxo de energia, o outro, o fluxo de tecnologia. Quando analisados em conjunto, revelam um risco sistêmico de proporções inéditas.

O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no mundo, é o principal corredor energético do planeta. Qualquer interrupção, mesmo temporária, provoca choques imediatos nos preços internacionais, impactando inflação, custo logístico e atividade econômica. Não se trata apenas de petróleo: é a base energética que sustenta toda a produção global.

Já o Estreito de Taiwan é menos visível ao grande público, mas igualmente ou até mais estratégico. Por essa região circula a espinha dorsal da indústria de semicondutores, responsável por cerca de 90% da produção global de chips avançados. Empresas como a TSMC concentram uma capacidade produtiva que não pode ser rapidamente replicada em outras regiões do mundo.

A interdependência entre energia e tecnologia cria uma simetria perigosa. Sem petróleo, fábricas param; sem chips, fábricas também param. A economia moderna não distingue mais claramente entre setores, tudo está conectado por cadeias produtivas altamente integradas e dependentes de insumos críticos.

Nesse contexto, a interrupção de Ormuz significaria uma crise energética imediata, com efeitos inflacionários globais, escassez de combustíveis e retração econômica, como já está ocorrendo com a atual guerra no Irã. Já um bloqueio no Estreito de Taiwan representaria um colapso tecnológico, atingindo desde a indústria automobilística até sistemas financeiros, telecomunicações e defesa.

O mais alarmante é que esses eventos não precisam ocorrer simultaneamente para gerar caos. A paralisação de apenas um desses pontos já seria suficiente para desencadear efeitos em cascata. Entretanto, a possibilidade de tensões geopolíticas simultâneas, no Oriente Médio e no Indo-Pacífico, amplia exponencialmente o risco de um verdadeiro “lockdown econômico global”.

Esse tipo de lockdown difere daquele observado durante a pandemia. Não haveria decretos, quarentenas ou medidas sanitárias. O colapso viria pela ruptura das cadeias logísticas: navios que não chegam, insumos que não são entregues, fábricas que simplesmente deixam de operar. É um bloqueio silencioso, porém devastador.

Os exemplos recentes mostram que não se trata de hipótese distante. A crise energética europeia, os impactos da guerra na Ucrânia e os gargalos logísticos pós-pandemia evidenciaram como choques localizados podem gerar efeitos globais profundos. A economia mundial tornou-se uma rede interdependente, na qual falhas pontuais se amplificam rapidamente.

Para países como o Brasil, o risco é frequentemente subestimado. A percepção comum limita-se ao aumento do preço dos combustíveis. No entanto, os efeitos reais seriam muito mais amplos: desabastecimento de produtos, interrupções industriais, escassez de medicamentos e colapsos logísticos em poucos dias, como já observado em crises anteriores.

A dependência externa em setores estratégicos, especialmente refino, fertilizantes, insumos industriais e componentes tecnológicos, torna economias emergentes ainda mais vulneráveis a esses choques. O Brasil, embora autossuficiente em petróleo bruto, ainda depende de cadeias externas para derivados, equipamentos e tecnologia.

Diante desse cenário, torna-se evidente que o verdadeiro risco não é apenas geopolítico, mas estrutural. O Estreito de Ormuz e o Estreito de Taiwan simbolizam essa fragilidade: dois pontos distantes, mas profundamente conectados, capazes de paralisar a economia global sem um único disparo.

Farid Mendonça Júnior – Economista, advogado, administrador e Assessor Parlamentar no Senado Federal

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