O brasileiro voltou a fazer contas antes de abastecer. E não, não é exagero. Em 2026, o preço da gasolina voltou a subir e, com ele, ressurge um velho discurso, culpa do mercado internacional, do dólar, das guerras. Tudo isso é verdade, mas está longe de ser toda a verdade. Gasolina cara, no Brasil, não é apenas consequência. É, sobretudo, resultado de escolhas.

O país produz petróleo, exporta petróleo e, ainda assim, paga caro para abastecer. Isso revela uma contradição estrutural que já deveria ter sido enfrentada há muito tempo, a incapacidade de transformar riqueza natural em benefício direto para a população. No meio desse caminho, estão decisões políticas, modelos tributários e uma política energética que oscila entre intervenção e omissão.

O recente aumento do ICMS escancarou esse cenário. Em vez de suavizar o impacto ao consumidor, opta-se por manter ou até ampliar a arrecadação sobre um insumo essencial. E aqui não se trata de defender irresponsabilidade fiscal, mas de questionar prioridades. Afinal, o combustível não é um produto qualquer. Ele movimenta a economia inteira. E quando a gasolina sobe, não sobe sozinha.

Sobe o frete, sobe o alimento, sobe o custo de vida. No Amazonas, onde a logística já é naturalmente cara, o impacto é ainda mais cruel. A população paga duas vezes, pela distância e pela ausência de políticas que levem em conta essa realidade regional.

Enquanto isso, o debate público continua superficial. Discute-se o preço na bomba, mas se evita discutir o sistema. Evita-se falar sobre a dependência externa de derivados, sobre a falta de investimento consistente em refino, sobre a complexidade tributária que transforma o combustível em fonte permanente de arrecadação.

E há um ponto que precisa ser dito com clareza, previsibilidade também é política pública. O que falta não é apenas controle de preços, mas estabilidade. O consumidor brasileiro vive sob sobressaltos, sem saber quando o próximo aumento virá e qual será sua intensidade.

Gasolina cara não deveria ser naturalizada. Não deveria ser explicada como fatalidade econômica.  Ela é, em grande medida, fruto de decisões ou da ausência delas.

E enquanto o país não enfrentar esse debate com seriedade, o brasileiro continuará fazendo o que já virou rotina, abastecendo menos, pagando mais e carregando, no tanque, o peso de um sistema que insiste em não mudar.

Roseane Torres Lima é advogada há 10 anos, pós-graduanda em ESG e Sustentabilidade. Atuou como assessora e procuradora judicial e do meio ambiente do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM), com experiência em gestão ambiental, fundiária e políticas públicas na Amazônia

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