A visita do presidente Lula, marcada para os dias 18 e 19 de maio, acontece em meio a um dos mais antigos e controversos embates judiciais da Amazônia brasileira: a luta pela recuperação da BR-319. Mais do que uma agenda administrativa, a presença de Lula nas obras da rodovia representa um gesto político em defesa do direito ao desenvolvimento do Amazonas, há décadas travado por disputas burocráticas e ações judiciais movidas sob forte viés ambientalista.
A principal programação da viagem será justamente a visita às obras da BR-319, estrada considerada vital para a logística, o abastecimento e a integração do Amazonas ao restante do país. Lula deverá inaugurar oficialmente a nova ponte sobre o rio Autaz Mirim, no km 24 da rodovia, além de visitar trechos já asfaltados, como o lote C, entre os quilômetros 198 e 218.
O ponto central da agenda será a reafirmação do compromisso do Governo Federal com o asfaltamento do chamado “trecho do meio”, extensão de 339,4 quilômetros entre os km 250,7 e 590,1, cujos editais de licitação já estão em andamento pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit).
A visita presidencial ocorre justamente quando a ONG Observatório do Clima anuncia uma nova ofensiva judicial para tentar barrar os processos licitatórios da estrada. A entidade contesta a decisão da desembargadora Maria do Carmo Cardoso, presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), que derrubou a liminar anteriormente concedida pela Justiça Federal do Amazonas suspendendo os editais da BR-319.
A polêmica em torno da rodovia se arrasta há décadas. Como destacou editorial recente da Folha de São Paulo, trata-se de um “imbróglio burocrático e jurídico” que impede, há anos, a recuperação de uma estrada inaugurada ainda em 1976 e que se tornou praticamente intrafegável durante o inverno amazônico.
O próprio jornal reconhece que o caso simboliza a tensão histórica entre desenvolvimento e meio ambiente numa região marcada por pobreza, isolamento e deficiência logística. Desde 2007, Dnit e Ibama travam discussões sobre o destino do trecho do meio sem que se alcance uma solução definitiva.
A decisão da desembargadora Maria do Carmo Cardoso foi recebida no Amazonas como um marco jurídico importante justamente por estabelecer um entendimento inovador: o de que a proteção ambiental não pode ignorar o interesse público, o direito de ir e vir e as necessidades básicas da população amazônida. Ao derrubar a liminar, o TRF1 reconheceu o caráter estratégico da rodovia para a integração regional e para o desenvolvimento econômico e social do estado.
Para líderes políticos como os senadores Omar Aziz (PSD) e Eduardo Braga (MDB), o novo entendimento cria esperança de que futuras tentativas de paralisação judicial também sejam rejeitadas pela Justiça Federal. A expectativa é de que prevaleça um equilíbrio mais racional entre preservação ambiental e dignidade humana.
Ao ir pessoalmente à BR-319, Lula sinaliza que a obra deixou de ser apenas uma reivindicação regional e passou a integrar uma estratégia nacional de logística e desenvolvimento da Amazônia. O presidente também deverá assinar a ordem de serviço para a construção do novo porto da Manaus Moderna, além de visitar estaleiros e entregar unidades habitacionais no Parque das Tribos.
Mas é a BR-319 que concentra hoje o principal embate político, ambiental e jurídico da região Norte. E a presença de Lula na rodovia tende a consolidar a mensagem de que o Amazonas não aceita mais permanecer isolado enquanto uma disputa judicial sem fim impede avanços considerados essenciais pela população local.

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