Os bispos da Igreja católica, reunidos em Assembleia Geral em Aparecida, SP, abril próximo passado, enviaram ao Povo Brasileiro uma mensagem da qual transcrevemos alguns tópicos da segunda parte do documento.

Preocupa-nos a discussão no Supremo Tribunal Federal sobre a substituição de contratos de trabalho regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) por vínculos precários de prestação de serviços, conhecidos como “pejotização”. Onde desaparece o Estado, vigora a lei do mais forte. Da mesma forma, é necessário reafirmar o direito sagrado ao repouso, oferecendo escalas de atividades que permitam aos trabalhadores melhor qualidade de vida e mais tempo com as suas famílias.

Em outubro deste ano, encorajamos o povo brasileiro a participar efetivamente da festa da democracia e exercitar conscientemente a cidadania como o melhor mecanismo para a solução dos desafios nacionais. Importam tanto as eleições para o Poder Executivo como para o Poder Legislativo, especialmente diante da necessidade de um parlamento que enfrente as causas estruturais da pobreza e crie condições de uma educação de qualidade, de moradia digna e de acesso à saúde para todos. É importante combater a compra e a venda de votos. Como sabemos, “o voto não tem preço, tem consequência”.

É fundamental escolher bem os candidatos, com propostas concretas a serviço dos mais vulneráveis, da justiça socioambiental e da vida. Da mesma forma, em tempos eleitorais, a relação entre religião e política deve respeitar as diferenças entre ambas e impedir qualquer instrumentalização. A liberdade religiosa sofre quando são atacadas as tradições religiosas.

Nesse contexto, torna-se urgente proteger a verdade dos fatos, a integridade do debate público e a legitimidade do processo eleitoral, especialmente diante da disseminação organizada de desinformação, da manipulação do medo, dos discursos de ódio, do uso abusivo de novas tecnologias e dos recursos da inteligência artificial. A corrosão da convivência democrática enfraquece a sociedade e fere a verdade. Por isso, renovamos nosso apelo à caridade e à ética, especialmente no campo da comunicação.

Urge enfrentar os extremos climáticos que atingem todos os biomas, especialmente a Amazônia, com seus povos, suas florestas e suas águas, ecossistema que afeta todo o planeta. Não podemos sacrificar a natureza e as pessoas em nome de modelos de exploração que negam o bem viver. Toda a Casa Comum sofre com a devastação.

Dirigimos nossa atenção aos povos indígenas e comunidades tradicionais, como os quilombolas e os ribeirinhos brasileiros. Eles continuam ameaçados por iniciativas que desconsideram sua história, sua identidade e seus direitos originários, por propostas legislativas inconstitucionais que procuram enfraquecer a proteção dos seus territórios. Nenhuma solução legítima poderá ser construída sem escuta verdadeira, participação e respeito a esses povos.

Nossas alegrias e esperanças são a nossa força! Inspirados por São Francisco de Assis, renovamos o nosso compromisso de ser instrumentos da paz e do bem. Exortamos o povo brasileiro a construir uma só família humana, fundada na justiça, na verdade e na solidariedade. Sob o manto protetor de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Mãe e Padroeira do Brasil, invocamos a bênção de Deus sobre toda a nação brasileira (Aparecida – SP, 24 de abril de 2026)

Cardeal Leonardo Ulrich Steiner – Arcebispo Metropolitano de Manaus

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