Depois das homenagens do Dia das Mães, maio também deixa nas redes sociais uma sequência de imagens bonitas: mães sorrindo, filhos bem vestidos, casas organizadas, lanche saudável, rotina alinhada e declarações emocionadas. Mas, para muitas mulheres, essa vitrine digital pode despertar uma pergunta silenciosa: por que a minha maternidade não parece assim?
A maternidade sempre foi atravessada por expectativas sociais. A diferença é que, agora, muitas dessas expectativas aparecem editadas em tela. A mãe real acorda cansada, negocia birras, esquece tarefas, perde a paciência, trabalha, cuida, improvisa e tenta recomeçar no dia seguinte. A maternidade da rede, muitas vezes, aparece recortada, iluminada e legendada. O problema não é compartilhar momentos felizes. O risco começa quando esses recortes passam a funcionar como medida de comparação.
Kirkpatrick e Lee (2022) observaram que imagens idealizadas de maternidade no Instagram podem aumentar inveja e ansiedade momentânea em mães recentes, especialmente quando elas se comparam a perfis semelhantes aos seus. Em outras palavras, quanto mais próxima parece aquela mãe da tela, maior pode ser a sensação de “eu deveria estar conseguindo também”. A comparação deixa de ser inspiração e se transforma em cobrança.
Esse efeito também aparece em pesquisas sobre comparação social materna. Coyne et al. (2017) apontam que comparar-se a outras mães nas redes sociais está associado a maior sobrecarga de papel e menor percepção de competência parental. Assim, mesmo cuidando, trabalhando, educando e sustentando afetivamente a rotina, a mãe pode sentir que está falhando quando passa a medir sua maternidade pela vitrine, e não pela vida real. Para mulheres com traços perfeccionistas, esse processo tende a ser ainda mais intenso. Padoa, Berle e Roberts (2018) destacam que não é apenas o tempo nas redes que pesa; a comparação parece contribuir para sintomas de ansiedade e piores desfechos de saúde mental. A mãe sofre não só pelo que vê, mas pelo que conclui sobre si: “não sou paciente, organizada ou boa o bastante
Nos últimos anos, as chamadas “momfluencers” também passaram a ocupar um lugar importante nesse cenário. Elas podem informar, acolher e criar identificação, mas também podem se tornar alvo constante de comparação. Estudos recentes indicam que mães estão fortemente engajadas em redes sociais e que influenciadoras maternas se tornaram fontes de informação e comparação social. Quando a maternidade vira conteúdo, até o amor pode parecer precisar de legenda.
É importante lembrar: uma foto bonita não mostra a birra anterior, a pia cheia, a culpa, a exaustão, o remédio esquecido, a conversa difícil ou o choro depois que a câmera desliga. A tela mostra um fragmento, não a totalidade da vida. E nenhuma mãe deveria medir sua competência por um recorte editado da rotina de outra pessoa.
Winnicott nos lembra que a criança não precisa de uma mãe perfeita, mas de uma mãe suficientemente boa. O desenvolvimento infantil não acontece em uma vitrine sem falhas; também se constrói nos desencontros da vida real: na birra que encontra limite, na tristeza acolhida, na frustração que ensina espera e na falha que pode ser reparada. A maternidade real não precisa ser instagramável para ser amorosa. Ela não se mede por cenário, legenda ou aparência de controle, mas pela presença possível, pela sustentação dos vínculos e pela coragem de recomeçar depois dos dias difíceis. Fora da vitrine, é nessa imperfeição sustentada que o desenvolvimento acontece.
Referências
- Kirkpatrick & Lee (2022), sobre imagens idealizadas de maternidade no Instagram, inveja, ansiedade e comparação social.
- Coyne et al. (2017), sobre comparação social em redes sociais, maternidade e saúde mental.
- Padoa, Berle & Roberts (2018), sobre uso comparativo de redes sociais, perfeccionismo materno e saúde mental.
- Onishi et al. (2024), sobre uso de redes sociais relacionadas à parentalidade, ansiedade parental, solidão e sofrimento psicológico em mães.

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