A corrida pelo ouro no Amazonas tem gerado um intenso conflito social e econômico, colocando em risco a vida de comunidades tradicionais, povos indígenas e o próprio equilíbrio ambiental. Com grande parte da atividade ocorrendo de forma ilegal, grupos se aproveitam de falhas na fiscalização para expandir a mineração, contaminando rios e ameaçando o futuro das gerações que dependem desses territórios.

A história da mineração no Brasil é marcada por episódios de violência ambiental e social, afetando diretamente as comunidades que vivem nas áreas exploradas. É o que aponta o sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Dr. Luiz Antônio Nascimento.

“Embora a humanidade precise dos materiais, dos minérios, a história da mineração é a história da degradação ambiental, é a história da degradação ética, moral e social, e é a história da violência. Toda a história da mineração ao redor do mundo é uma história que combina essas variáveis. Então, pensar em mineração na Amazônia, pensar em mineração eventualmente em terra indígena, quase sempre ilegal e irregular em comunidades, é lembrar disso, é lembrar que a mineração é degradadora do espaço e degrada a moral, degrada a existência das pessoas”, explicou o professor.

Segundo dados do MapBiomas, a área de garimpo no Brasil saltou de 181 km² em 1985 para 2.400 km² em 2023 — mais de dez vezes em menos de 40 anos. Desse total, 77% correspondem a áreas de exploração ilegal, muitas delas dentro de unidades de conservação ou terras indígenas. No Amazonas, os principais focos de combate estão nas regiões dos rios Madeira e Jutaí, além do entorno da Terra Indígena Yanomami, onde a presença de balsas, dragas e máquinas pesadas ameaça a vida da população.

Avanço no Rio Madeira

Foto: Divulgação/Funai

Em uma ação conjunta de cinco dias, realizada em março, a Funai, o Ibama e a Polícia Militar Ambiental destruíram 31 balsas utilizadas na atividade de garimpo predatório no rio Madeira. Na ocasião, a Funai destacou os graves prejuízos socioambientais causados pela prática ilegal.

“A atividade ilícita polui os rios com mercúrio, utilizado no processo de extração do ouro, que envenena peixes e outros organismos aquáticos, afetando a principal fonte de alimentação e sustento das comunidades locais. O garimpo resulta ainda na destruição de habitats, promovendo o desmatamento, além de movimentar sedimentos no fundo das águas, o que altera o curso dos rios e prejudica a biodiversidade da Amazônia”, destacou o órgão.

O avanço do garimpo ilegal tem provocado profundas transformações em comunidades inteiras. Na calha do rio Madeira, o município de Humaitá foi palco de um conflito violento entre garimpeiros e agentes da Polícia Federal, após uma operação que desmantelou parte da atividade ilegal na região. De acordo com as autoridades, mais de 220 balsas foram desativadas e 14 pessoas foram presas.

O crescimento do garimpo ilegal reflete, em muitos casos, o desespero por renda rápida e o desejo de ostentar riqueza. No entanto, segundo o sociólogo Luiz Antônio, essa ideia é uma ilusão construída socialmente.

“Essa ideia de achar que isso vai gerar riqueza, vai trazer desenvolvimento, repito, é uma armadilha. Vamos olhar para Roraima, vamos olhar a mineração nas terras indígenas. Quem ganhou dinheiro com a mineração nos últimos 5, 10 anos de mineração ilegal naquelas áreas? Vamos olhar para o Baixo Amazonas, Manicoré, Nova Olinda, mineração na calha do rio Madeira. Quem ganhou? O que melhorou na vida das pessoas ali? Em que medida aquelas minerações ilegais trouxeram algum nível de conforto, de melhoria das condições de vida daquelas populações? Nenhuma, absolutamente nenhuma”, destacou o especialista.

Vale destacar que, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, foram assinados decretos que incentivaram o garimpo — especialmente em áreas da Amazônia — medida que, à época, recebeu fortes críticas de ambientalistas.

Formação de novas cidades

Foto: Agência Brasil

Como consequência da atividade ilegal, novas comunidades de garimpeiros se formam no coração da floresta amazônica, trazendo consigo empregos informais e alternativas precárias de lazer. A prostituição, por exemplo, tem se tornado uma das atividades mais comuns, atraindo vítimas que acabam presas em um ciclo contínuo de exploração.

Em 2023, uma adolescente de 15 anos foi resgatada de um garimpo ilegal na Terra Yanomami, em Roraima. A jovem contou aos agentes da Polícia Federal que foi levada ao local após receber a promessa de um trabalho como cozinheira, mas, ao chegar ao garimpo, foi forçada a se prostituir, chegando a realizar até 16 programas sexuais por noite.

“Ela ficou animada com a quantidade de dinheiro. Eles foram buscá-la em casa, aqui em Boa Vista, em um carro superluxuoso. Inicialmente, ela ficou confiante de que iria trabalhar na cozinha e que seria paga por isso. Quando chegou, a realidade foi outra. Eles a obrigaram a ir para os cabarés — inúmeros — lá dentro. E disseram que, se ela não fosse, seria ‘rodada’, como costumam dizer. Não iriam pagá-la e ainda corria o risco de ser assassinada, pois a ameaçaram de morte. Então, ela não teve outra alternativa”, relatou o conselheiro tutelar Franco Rocha.

O professor Luiz Antônio aponta que a exploração sexual está diretamente ligada à dinâmica do garimpo, que aprisiona não apenas os trabalhadores, mas também as mulheres forçadas à prostituição.

“É muito raro você ter mais do que meia dúzia de trabalhadores, a cada 100, que conseguem ganhar algum dinheiro com a mineração. E, por conta dessa lógica, o segundo elemento que chega são as mulheres prostituídas, quase sempre exploradas sexualmente por rufiões, por homens que vão achacar e explorar o trabalho dessas mulheres em prostituição”, finalizou.

Interesses ocultos

Foto: Reprodução

Dentro dessa perspectiva, o garimpo ilegal é frequentemente impulsionado pelo apoio de empresas ligadas a grupos econômicos influentes, que veem na Amazônia uma mina de ouro disfarçada de floresta.

“O problema é que as mineradoras têm muito dinheiro. As empresas de mineração têm muito dinheiro, e elas gastam com muita publicidade, de um lado, e financiam políticos, financiam parlamentares para defender os interesses dessas mineradoras”, pontuou o professor.

O assunto também repercute na Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam), onde a atividade garimpeira é motivo de divergência entre os parlamentares.

O então deputado Serafim Corrêa (PSB) criticou a elaboração, por parte do governo Bolsonaro, de um decreto que autorizaria, segundo ele, a exploração mineral artesanal na região. O parlamentar lembrou o antigo garimpo de Serra Pelada, que, na década de 1980, poluiu o meio ambiente sem trazer benefícios concretos ao país.

“Quero manifestar minha preocupação com essa atividade. Qual foi o garimpeiro que melhorou de vida? Esse garimpo predatório que fazem na Amazônia lida com garimpeiros em condições análogas à escravidão. Temos que buscar atividades sustentáveis para a Amazônia, e não degradantes. Isso é muito grave e sério. Deixo aqui meu repúdio sobre a maneira como foi regulamentada”, criticou.

Ações de combate

Foto: Comando Conjunto Uiara

Diante dos inúmeros impactos ambientais e sociais, o avanço do garimpo ilegal levou o governo federal a adotar medidas para combater essa atividade.

Na Terra Indígena Yanomami (TIY), a maior reserva indígena do Brasil, as 3.536 operações de segurança impuseram à rede criminosa do garimpo ilegal um prejuízo de R$ 267 milhões e resultaram em uma redução de 95,76% nas novas áreas de garimpo — que caíram de 1.002 hectares explorados em 2022 para apenas 42 hectares em 2024.

No último mês, a operação Kampô, deflagrada pela Polícia Federal, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), combateu a mineração ilegal na bacia hidrográfica dos rios Jutaí, Bóia e Igarapé Preto, no município de Jutaí.

Foram inutilizados e apreendidos, de acordo com os critérios previstos em normativos ambientais, diversos equipamentos empregados na lavra ilegal, como 16 dragas, 4 mil litros de combustível, 5 rebocadores, 2 embarcações regionais, 6 voadeiras, frascos de mercúrio, 4 motores de popa, 3 inversores, carregador de bateria e 2 redes de comunicação (Starlink).

O Em Tempo também entrou em contato com o Ibama para falar sobre as operações realizadas no estado, mas até o momento, não houve retorno. O espaço está aberto para manifestação.

Leia mais: PF mira esquema de R$ 39 milhões do garimpo ilegal em Terra Yanomami