Se no artigo passado falamos dos meninos que estão transformando tadalafila em acessório de adolescência, hoje precisamos olhar para o outro lado do balcão. Porque há um fenômeno silencioso acontecendo, cada vez menos silencioso, nas drogarias de bairro e nas farmácias próximas às escolas públicas de Manaus: meninas de 11, 12, 13, 14 anos comprando, com frequência preocupante, pílula do dia seguinte.

Não é um episódio isolado. Não é exceção. Está virando rotina.

A cena se repete. Uniforme escolar, mochila nas costas, olhar apressado. Muitas já sabem exatamente o que pedir. Algumas entram em dupla. Outras entram sozinhas, com a naturalidade de quem compra um analgésico. A contracepção de emergência, que deveria ser exatamente isso, emergência, virou método recorrente.

E aqui precisamos ser muito claros: a pílula do dia seguinte não é inofensiva. Não é uma “vitaminazinha hormonal”. Ela contém altas doses de levonorgestrel ou ulipristal, que provocam uma descarga hormonal intensa para impedir ou atrasar a ovulação. É um recurso importante quando necessário. Mas o uso repetido, principalmente em um organismo que ainda está em maturação hormonal, é uma bomba regulatória.

Ali entre 11 e 14 anos, o eixo hipotálamo-hipófise-ovário ainda está se organizando. O ciclo menstrual muitas vezes nem está completamente estabilizado. Introduzir, de forma frequente, doses elevadas de hormônio pode causar irregularidades menstruais persistentes, sangramentos intensos, alterações de humor, cefaleia, náuseas e, a longo prazo, desorganização do padrão ovulatório. Sem falar na falsa sensação de segurança, que não protege contra infecções sexualmente transmissíveis.

Como farmacêutica, recebo relatos constantes de colegas que vivem o mesmo dilema ético. Tentam abordar com cuidado, explicar que aquilo não deve ser rotina, orientar sobre métodos contraceptivos mais seguros, sobre consulta médica, sobre prevenção. E o que acontece? Muitas vezes a adolescente simplesmente não volta mais naquela farmácia. Procura outra. Compra em outro lugar. Some.

Isso revela algo maior do que um comportamento de consumo. Revela ausência de diálogo.

Não há abertura para conversar com os pais. Não há espaço para escutar o farmacêutico. Não há acompanhamento médico. Só a urgência. Só o medo. Só a repetição de um ciclo que se torna cada vez mais precoce.

Estamos diante de uma geração que amadurece biologicamente mais cedo, exposta a estímulos intensos nas redes sociais, mas emocionalmente ainda imatura para lidar com as consequências de decisões tão complexas. Sexualidade não pode ser tratada como tabu, mas também não pode ser reduzida a improviso hormonal.

A pílula do dia seguinte tem seu lugar. Ela evita gestações indesejadas em situações específicas. Mas quando se transforma em método habitual em meninas que mal saíram da infância, algo está profundamente desalinhado.

E talvez a pergunta mais importante não seja sobre a venda na farmácia.

Talvez a pergunta precise começar dentro de casa.

Como anda o seu diálogo com seus filhos?

Natasha Mayer

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