Por Cristóvam Luiz

Era um ano de efervescência cultural numa pacata ilha amazônica, caracterizado pelo trabalho intenso dos padres e missionários italianos que conduziam as agendas da Catedral de Parintins, nos idos anos de 1980, indubitavelmente focadas nos temas da educação, da cultura, da assistência social e do cumprimento de diretrizes da legislação.

Naquele ano, o autor deste artigo desenvolvia atividades como instrutor do SEBRAE-AM na realização de Cursos de Formação de CIPAS e, convidado pela Prefeitura local, teve o prazer de realizar este curso para uma plateia integrada por professores, servidores públicos, representantes sindicais e de trabalhadores do município.

Ao término do curso, surgiu um convite de uma querida professora para a contemplação do pôr-do-sol no Rio Amazonas, na belíssima orla da cidade. Na época, um barzinho elegante, entre um arvoredo imponente e de nome estranho (Piroca da Gadelha) resplandecia às margens do poderoso Rio Amazonas, como a registrar num arco-íris o esplendor das civilizações indígenas que singraram naquele espaço geográfico e histórico.

Pois estava ali, feliz, tomando água de coco e cervejinha bem gelada, não podia caber em mim observando tantas coisas bonitas que a natureza nos presenteia. Eis que, de repente, a professora Gadelha me falou que teríamos uma reunião de amigos dedicados à cultura brasileira, na literatura e na música. Tomei um susto quando logo em seguida chegou e tomou assento em nossa mesa o poeta Thiago de Melo.

Minutos depois, acompanhado de um violão e um sorriso de prazer de brasilidade, o cantor Chico da Silva também toma assento à mesa já rodeada de admiradores da arte e da cultura que aquela ilha abraça e expõe para a vida.

Foi de fato um momento de magia, onde podíamos ter entre uns goles de cerveja, uma audição da poesia ao vivo narrada por Thiago de Melo, como a lembrar dos “girassóis nas janelas” entre sequências musicais de Chico da Silva.

Depois de relembrar o processo de concepção do Estatuto do Homem e sua história de exílio no Chile, marcado pela forte saudade das coisas do Brasil, dos sabores e afetos aqui deixados, o poeta bradou: “Faz escuro, mas eu canto/ Porque a manhã vai chegar”. “Thiago deixou algumas lágrimas rolarem em seu rosto, que foram aumentadas quando ele falou de sua amizade com o grande poeta Pablo Neruda, Prêmio Nobel de Literatura.

Nesse momento, imaginei que tivesse diante de um fato em que havia a realeza de um semideus a chorar, literalmente, enquanto o sol baixava seu esplendor nas águas do garboso Amazonas.

Aquilo era magia, era um instante daqueles em que pensamos que deveriam parar no tempo. Para completar aqueles instantes de puro prazer, o ilustre Chico da Silva nos brindava cantando os versos da música Sonhos de Menino, que exaltava o padre Cícero, um outro bondoso e gigante brasileiro. Foi uma reunião de oração em prosa e verso, que até hoje me alegra o coração e a alma, naquela ilha de magia amazônica.

Leia mais: