Às dez da manhã, o asfalto do centro de Manaus já reflete um mormaço sufocante. Em alguns bairros das zonas Leste, Sul e Norte, caminhar ao meio-dia é como atravessar um deserto, e a sensação térmica, impulsionada pela umidade da região, ultrapassa os 40 °C.
No dia 22 de março deste ano, a Defesa Civil registrou 42,1°C de sensação térmica no bairro Adrianópolis e 41,8°C na Base Aérea. A cidade que deveria ser o símbolo da floresta é, também, uma das capitais brasileiras que mais sofre com o calor urbano.
O dado que explica esse paradoxo veio do Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): apenas 44,8% das ruas de Manaus possuem arborização, colocando a capital na sétima pior posição entre as capitais brasileiras, atrás até mesmo de cidades ligadas ao agronegócio, como Campo Grande (91,4%) e Cuiabá (74,5%). Mais de um milhão de moradores, 55,07% da população, vivem em locais sem qualquer árvore no entorno.
O resultado direto dessa ausência é o fenômeno das ilhas de calor urbanas: áreas densamente construídas, pavimentadas com asfalto e concreto, absorvem radiação solar durante o dia e a liberam lentamente, enquanto regiões com cobertura vegetal funcionam como “ilhas de frescor”. Em Manaus, essa diferença pode chegar a 10°C entre um bairro densamente urbanizado e uma área próxima à floresta.
“Em áreas com maior cobertura vegetal, observa-se melhor conforto térmico, enquanto regiões mais densamente construídas tendem a apresentar temperaturas mais elevadas. No caso de Manaus, a expansão urbana recente tem contribuído para a intensificação desse processo”, explicou o professor de Geografia da Ufam, Thiago Neto.
Bairros como São José, na zona Leste, e os da zona Centro-Oeste figuram entre os polos de calor mais intensos da cidade, segundo levantamentos sobre temperatura de superfície. Em contraste, fragmentos florestais urbanos, como o entorno do igarapé do Mindu e parques, ainda funcionam como reguladores térmicos, apresentando temperaturas significativamente mais amenas. Mas esses espaços estão encolhendo.
Por que o concreto esquenta mais

A explicação para o fenômeno está na física dos materiais. O asfalto e o concreto, predominantes em bairros populosos como o Dom Pedro, absorvem quantidades muito maiores de energia solar ao longo do dia e a liberam na forma de calor durante a noite, impedindo que a cidade “respire”.
A verticalização agrava o problema: edifícios bloqueiam a circulação dos ventos, criando bolsões de calor entre as construções. A poluição dos veículos e das indústrias forma ainda uma camada que retém a radiação infravermelha como um “tampão térmico”, dificultando a troca de calor entre o solo e a atmosfera.
Para Djnair Sales, especialista em Clima e Ambiente, Manaus enfrenta um alto contraste entre cidade altamente urbanizada e a Floresta Amazônica ao redor.
“A floresta possui forte evapotranspiração e sombreamento em superfície, quando substituímos isso por asfalto e concreto, materiais que absorvem mais radiação, há um aumento do aquecimento próximo à superfície”, pontuou.
Além disso, o fenômeno se retroalimenta: quanto mais quente a cidade, maior a demanda por ar-condicionado, que expele calor para o ambiente externo, elevando ainda mais as temperaturas das ruas.
Em um contexto de aquecimento global, esse ciclo tende a se intensificar. Conforme Sales, projeções indicam a continuidade do aquecimento observado na última década – a mais quente já registrada globalmente -, o que pode ampliar ainda mais a intensidade das ilhas de calor em Manaus, especialmente durante as madrugadas.
‘Quando chego, já estou bem estressado‘

Marcelo, 24 anos, mora no bairro Dom Pedro, na zona Centro-Oeste, e conhece bem essa realidade. Trabalha numa avenida movimentada e volta de moto ao meio-dia, o horário em que o calor está no auge. Para ele, a diferença entre os bairros é perceptível no próprio trajeto.
“Avenidas como Djalma Batista e Constantino Nery são muito quentes, com pouca arborização. Já na Getúlio Vargas e em alguns trechos do Centro, onde há mais árvores e melhor circulação de ar, o ambiente é mais fresco”, compartilhou.
O calor afeta mais do que o corpo. “Chego mais cansado no trabalho do que uma pessoa que não pega sol para se locomover. O calor acaba afetando não só o meu corpo, mas também o meu humor”, contou.
O desconforto térmico que Marcelo descreve tem consequências documentadas. Segundo pesquisas do ILMD/Fiocruz Amazônia, doenças cardiovasculares, respiratórias e diarreicas representaram 50,6% das internações hospitalares de pessoas economicamente ativas em Manaus entre 1998 e 2009, com impacto econômico estimado em R$ 28,4 milhões em gastos hospitalares e perda de produtividade.
Soluções existem e estão na própria floresta
O calor em Manaus não é distribuído de forma igual. As ilhas de calor concentram-se, sobretudo, nas zonas de menor renda, onde a urbanização avançou de forma mais desordenada e a arborização é mais escassa. Por outro lado, quem tem condições financeiras para viver em condomínios arborizados ou trabalhar em ambientes climatizados experimenta a cidade de outra maneira.
Consequentemente, as zonas mais frescas tornam-se também as mais valorizadas no mercado imobiliário, aprofundando a desigualdade territorial.
De acordo com a engenheira florestal Fabiana Rocha, o caminho para uma Manaus mais habitável passa por tratar a vegetação como infraestrutura urbana, não como ornamento. Arborização estratégica, parques lineares, corredores verdes e, especialmente, a recuperação dos igarapés são apontados como as intervenções mais eficazes para reduzir as ilhas de calor.
“O igarapé reduz a temperatura local, aumenta a umidade dos espaços e melhora as condições de drenagem urbana. Se Manaus tratar seus igarapés como uma infraestrutura voltada às características de clima, e não como problema sanitário, a cidade muda de temperatura e também resolve parte desse problema”, declarou.
A recuperação desses corpos d’água, combinada com a criação de corredores de vegetação que conectem fragmentos florestais urbanos, atuaria em múltiplas frentes: reduziria a temperatura, melhoraria a drenagem, filtraria o ar e promoveria biodiversidade.
Como forma de aumentar a cobertura vegetal, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Manaus (Semmas) criou o programa Manaus Verde, que em 2025 atingiu a marca de 32 mil mudas plantadas na capital. Desde 2021, o total chega a 55 mil mudas, distribuídas em canteiros centrais, escolas municipais, áreas de preservação permanente, parques e logradouros. A iniciativa também promoveu a doação de mais de 100 mil mudas a população e implantou mais de 60 pomares urbanos.

Para o futuro, projeções estimam que, até 2050, Manaus possa registrar até 258 dias de calor extremo por ano. As ilhas de calor não são causadas pelas mudanças climáticas, mas são amplificadas por elas, tornando as ondas de calor mais frequentes e severas. Segundo Fabiana, o risco de não agir é concreto.
“Se a gente não incorporar a natureza que já existe ali como infraestrutura urbana, a cidade vai continuar crescendo, ficando menos habitável, ficando mais desigual. A gente já tem um modelo pronto, que é a própria floresta”, finalizou.
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