Durante muito tempo, o autismo foi descrito a partir de um perfil predominantemente masculino. Esse recorte histórico ainda influencia a forma como os sinais são percebidos na clínica, na escola e até nas famílias.
O resultado é que muitas meninas e mulheres autistas passam anos sem reconhecimento adequado, recebendo diagnóstico tarde ou, em alguns casos, nem chegando a ser identificadas.
Em revisão sistemática brasileira, Freire e Cardoso (2022) mostraram que, entre os estudos analisados, metade apontou subdiagnóstico no sexo feminino e 40% mencionaram diagnóstico tardio.
Isso não significa ausência de sinais. Significa, muitas vezes, que eles aparecem de modo menos esperado por quem observa.
Na mesma revisão, meninos foram mais frequentemente descritos com comportamentos repetitivos e estereotipados, enquanto meninas tiveram maior destaque para dificuldades sociocomunicativas e manifestações mais facilmente camufladas.
Quando o olhar clínico espera apenas o perfil mais clássico, parte dessas meninas simplesmente não entra no radar.
É nesse ponto que ganha relevância a chamada camuflagem social. Mais do que timidez ou aparente boa adaptação, ela pode envolver um esforço contínuo para copiar comportamentos, ensaiar respostas, esconder desconfortos e parecer socialmente ajustada.
Uma revisão integrativa publicada na Revista Neurociências em 2024 discutiu justamente a influência dessa camuflagem no diagnóstico tardio do autismo em mulheres.
O problema é que essa adaptação aparente pode confundir. Em vez de levantar a hipótese de autismo, essas meninas costumam ser vistas apenas como tímidas, sensíveis, ansiosas ou perfeccionistas.
A dificuldade não desaparece; apenas deixa de ser facilmente percebida. Hull, Petrides e Mandy (2020) já chamavam atenção para isso ao descrever a camuflagem como uma das chaves para compreender por que tantas meninas parecem funcionar bem por fora, embora às custas de grande desgaste emocional.
Os estudos mais recentes reforçam essa leitura. Em artigo publicado em Autism Research, Milner et al. (2024) encontraram, em mulheres, associação mais forte entre camuflagem e idade do diagnóstico do que em homens. Em outras palavras, quanto maior a camuflagem, maior a chance de que o reconhecimento clínico chegue mais tarde.
No Brasil, esse percurso também aparece em estudos qualitativos recentes. Clementino, Silva e Kissula (2025) descrevem trajetórias de mulheres adultas marcadas por longos caminhos nos serviços de saúde, diagnósticos prévios como ansiedade e depressão e sinais antigos interpretados como traços de personalidade.
Quando o diagnóstico finalmente chega, ele pode trazer alívio, mas também expõe o peso de anos de invisibilidade.
Falar sobre autismo em meninas e mulheres, portanto, não é apenas acrescentar uma nuance ao debate. É corrigir um ponto cego. Enquanto o conhecimento clínico permanecer excessivamente preso a um modelo masculino de apresentação, muitas meninas seguirão sem nome para aquilo que vivem, sem acesso precoce ao cuidado e sem o apoio de que realmente precisam.
Olhar para o autismo feminino com mais precisão não é criar exceções. É ampliar a capacidade de reconhecer quem sempre esteve ali, mas nem sempre foi visto.

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