Graduada em Direito e em Pedagogia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a desembargadora Carla Maria Santos dos Reis é presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM).

A magistrada possui mestrado em Direito de Família e das Relações Sociais pela PUC de São Paulo. Ingressou na magistratura em 1989, como primeira colocada no concurso público. A carreira inciou como juíza da Comarca de Urucurituba e depois foi titular da 2.ª Vara da Comarca de Itacoatiara, onde também foi juíza eleitoral.

Em 2024, foi convidada pelo ministro Mauro Campbell Marques, para compor sua equipe junto à Corregedoria Nacional de Justiça, no período de 3 de setembro de 2024 a 31 de agosto de 2026. Atualmente, é presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas para o biênio 2025 – 2026.

Confira a entrevista:

EM TEMPO – Como o TRE-AM está se preparando para garantir a organização das Eleições de 2026 no Amazonas?
CARLA REIS – O planejamento das eleições no Amazonas começa com bastante antecedência. Nosso estado tem uma realidade muito particular, com grandes distâncias, predominância do transporte fluvial e comunidades de difícil acesso. Por isso, cada etapa precisa ser cuidadosamente organizada para que tudo aconteça dentro do prazo. Nesse momento, estamos trabalhando no mapeamento das rotas, na definição dos meios de transporte, na contratação dos serviços necessários e na mobilização das equipes que atuarão antes, durante e após a votação. Neste pleito, vamos mobilizar mais de 9 mil urnas eletrônicas e, assim como ocorre em todas as eleições, as Forças Armadas e os órgãos de segurança pública são parceiros da Justiça Eleitoral. Esse apoio é fundamental para garantir que as urnas, os materiais de votação e as equipes cheguem aos 62 municípios amazonenses com segurança e dentro dos prazos previstos.

ET – Qual o impacto da Inteligência Artificial no processo eleitoral?
CR –
A inteligência artificial não é uma tecnologia recente. Ela vem evoluindo ao longo dos anos e, com os avanços mais recentes, passou a ter um impacto ainda maior na forma como as informações são produzidas e compartilhadas. Ao mesmo tempo em que traz inúmeros benefícios, também impõe novos desafios ao processo eleitoral. Diante desse cenário, o TRE-AM vem adotando diferentes estratégias para ampliar sua capacidade de prevenção, monitoramento e resposta. Entre elas está a criação do Núcleo de Fiscalização Virtual, responsável pelo acompanhamento contínuo de conteúdos publicados na internet e nas redes sociais, permitindo a identificação mais rápida de possíveis irregularidades como o uso de deepfakes e outros conteúdos sintéticos.

ET – Quais estratégias estão sendo planejadas ou adotadas para enfrentar a disseminação de notícias falsas durante o período eleitoral?
CR –
No TRE-AM, contamos com um Comitê de Enfrentamento à Desinformação, presidido pela juíza Mônica Câmara, composto por dois núcleos que atuam de forma integrada. Um deles é responsável pelo monitoramento contínuo de conteúdos publicados na internet e nas redes sociais, enquanto o outro atua diretamente em campo durante o período eleitoral. Essa atuação conjunta fortalece nossa capacidade de prevenção e identificação a possíveis irregularidades, permitindo uma ação mais ágil da Justiça Eleitoral. Participamos das ações coordenadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), utilizando ferramentas como o Sistema de Alerta de Desinformação Eleitoral (SIADE), que auxilia na identificação de conteúdos falsos, deepfakes, ataques à honra e outras práticas ilícitas. O Sistema Pardal permanece como o canal oficial para que qualquer cidadão denuncie propaganda eleitoral irregular. Essas ferramentas estarão disponíveis por meio do site do TRE-AM. Neste pleito, o TRE-AM também passará a utilizar, para uso interno, a plataforma GUAIA, desenvolvida pela Universidade Federal de Goiás (UFG), que amplia a capacidade de detecção, monitoramento, verificação e resposta a conteúdos desinformativos.

ET – Ocorreram mudanças recentes na Lei das Eleições. Quais exigem mais atenção do eleitor em 2026?
CR –
As resoluções aprovadas pelo TSE trouxeram aperfeiçoamentos principalmente para acompanhar a evolução das tecnologias. Um dos pontos que merece atenção é o uso da inteligência artificial na propaganda eleitoral. As regras ficaram mais claras quanto à identificação de conteúdos produzidos ou manipulados por IA, justamente para proteger o eleitor contra a desinformação e o uso indevido dessas ferramentas. Outra novidade é a restrição à circulação de conteúdos sintéticos que alterem a imagem ou a voz de candidatos e pessoas públicas. Nas 72 horas que antecedem a votação e nas 24 horas seguintes ao encerramento do pleito, fica proibida a divulgação desse tipo de material, ainda que ele esteja identificado como inteligência artificial. A medida busca evitar que conteúdos enganosos influenciem o eleitor em um momento em que não há tempo suficiente para a verificação dos fatos.

ET – Como o TRE-AM se prepara para identificar e responder rapidamente a possíveis crimes eleitorais durante a campanha?
CR –
Os juízes eleitorais, que estão presentes em todos os municípios, acompanham de perto o andamento da campanha e são responsáveis por analisar e decidir, com agilidade, as demandas relacionadas à propaganda eleitoral, ao poder de polícia e às demais questões de sua competência. Esse trabalho é realizado em conjunto com o Ministério Público Eleitoral, as forças de segurança e as equipes técnicas do TRE-AM, permitindo uma resposta rápida sempre que houver indícios de irregularidades ou crimes eleitorais.

ET – Como funciona a ação do TRE-AM voltada à educação eleitoral para a população em situação de rua?
CR –
O TRE-AM participa das ações do PopRuaJud, uma política nacional coordenada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que busca ampliar o acesso à Justiça e à cidadania para as pessoas em situação de rua, por meio de um atendimento mais humanizado e menos burocrático. Em parceria com a Escola Judiciária Eleitoral do Amazonas, também promovemos atividades de educação para a cidadania, incluindo demonstrações práticas do funcionamento da urna eletrônica, para que as pessoas conheçam o processo de votação de forma simples e acessível.

ET – Quais inovações tecnológicas devem ser incorporadas ou ampliadas nas próximas eleições?
CR –
As Eleições 2026 contarão com aprimoramentos tecnológicos voltados a tornar o processo de votação ainda mais seguro, ágil e acessível. Entre as novidades está a inclusão de um indicador visual na urna eletrônica, que permitirá ao eleitor acompanhar, de forma clara, em que etapa da votação se encontra e quantos votos ainda precisam ser registrados. Outra inovação é a exibição da fotografia do eleitor no terminal do mesário, facilitando a conferência da identidade no momento da votação. A identificação do eleitor pelo mesário poderá ser realizada tanto pelo número do título eleitoral quanto pelo CPF, ampliando as opções de consulta e tornando o atendimento mais prático.