O pacote de medidas de Lula supera R$ 180 bilhões e deve produzir efeitos sobre a economia e as contas públicas que se estendem até o próximo mandato presidencial, a partir de 2027, segundo levantamento da reportagem.

Lula, que disputa a reeleição neste ano, intensificou os anúncios e as inaugurações nas últimas semanas. A partir deste sábado (4), começa o chamado “defeso eleitoral”, período de três meses que antecede as eleições e no qual o governo fica impedido de realizar eventos oficiais, inaugurações e campanhas de divulgação.

As medidas têm como principal público os brasileiros de renda intermediária, grupo que representa cerca de um terço do eleitorado e no qual Lula enfrenta maior resistência, de acordo com dados do Datafolha.

O presidente aparece à frente do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na intenção geral de voto. No entanto, o parlamentar apresenta desempenho melhor entre os eleitores com renda familiar entre dois e cinco salários mínimos, faixa equivalente a R$ 3,2 mil e R$ 8,1 mil mensais.

Levantamento reúne 16 medidas do governo

O levantamento da reportagem reúne 16 medidas anunciadas pelo governo federal com base na avaliação de economistas e especialistas em contas públicas. No início de maio, o conjunto somava R$ 144 bilhões. Entretanto, o avanço para mais de R$ 180 bilhões em junho demonstra a aceleração das ações antes do calendário eleitoral.

Das 16 medidas, seis podem provocar impactos fiscais primários, seja por renúncia de receitas ou pelo aumento das despesas diretas da União. Nesses casos, o governo afirma ter buscado compensações por meio da elevação de tributos ou de remanejamentos orçamentários.

As outras dez iniciativas envolvem, principalmente, linhas de crédito com juros inferiores aos praticados pelo mercado, utilizando fundos públicos como garantia das operações bancárias.

Crédito, incentivos e renegociação de dívidas

Entre as primeiras medidas anunciadas em 2026 está o aporte de até R$ 15 bilhões ao Fundo de Garantia de Operações (FGO), administrado pelo Banco do Brasil, para financiar o programa Desenrola 2.0. O fundo garante o pagamento das dívidas renegociadas pelos bancos em caso de inadimplência.

Em abril, o governo lançou uma linha de crédito de R$ 21,2 bilhões destinada à compra de caminhões e ônibus. Além disso, anunciou outra linha de R$ 10 bilhões para financiar máquinas agrícolas destinadas aos produtores rurais.

A reportagem também revelou que a nova linha de crédito para entregadores de aplicativos comprarem motocicletas deve movimentar cerca de R$ 4 bilhões em empréstimos. Mais recentemente, o governo lançou uma linha de R$ 30 bilhões voltada à renovação da frota de taxistas e motoristas de aplicativos.

Nesta semana, ao anunciar a redução do subsídio ao diesel, o governo informou que desembolsou até R$ 16 bilhões para conter os impactos da guerra entre Irã e Israel sobre os preços dos combustíveis.

Outra medida encaminhada ao Congresso Nacional amplia, de forma gradual, o teto de faturamento do Microempreendedor Individual (MEI) para R$ 140 mil em 2028. Caso seja aprovada nos moldes atuais, a proposta deve gerar renúncia de receita estimada em R$ 4 bilhões, sendo R$ 2 bilhões por ano entre 2027 e 2028.

Além disso, o governo prevê um programa de renegociação de dívidas para MEIs, com descontos que podem chegar a 70%.

Medidas sem estimativa fiscal

Outras iniciativas adotadas pelo governo neste ano ficaram fora do levantamento por não possuírem estimativa oficial de impacto fiscal.

Entre elas está a revogação da tributação sobre compras internacionais de até US$ 50, conhecida como “taxa das blusinhas”. A equipe econômica estimava arrecadar R$ 1,2 bilhão com essa cobrança ao longo de 2026.

Procurado, o Ministério da Fazenda informou, em nota, que o governo “trabalha e produz de forma consistente desde o primeiro dia” e afirmou que os projetos possuem “impacto direto sobre o cotidiano de milhões de brasileiros”.

Especialistas divergem sobre impactos econômicos

O volume de recursos envolvidos no pacote gerou críticas de especialistas e do próprio Banco Central, que apontam possíveis efeitos sobre a inflação e a condução da política monetária.

No Relatório de Política Monetária divulgado na semana passada, o Banco Central afirmou que o conjunto de medidas representa um fator de risco para o cenário econômico e informou que acompanhará seus efeitos nos próximos meses. A instituição destacou que a demanda doméstica continuará sendo um dos elementos considerados nas decisões sobre a taxa básica de juros.

À reportagem, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, rejeitou a avaliação de que as medidas possam pressionar a inflação ou dificultar a atuação do Banco Central.

Segundo ele, a equipe econômica considera que as iniciativas terão efeito “neutro” ou “levemente positivo” sobre a atividade econômica e não representam estímulo suficiente para gerar aumento dos preços.

Economistas avaliam efeitos sobre juros e dívida

Para Jeferson Bittencourt, ex-secretário do Tesouro Nacional e head de macroeconomia da ASA Investments, o pacote de estímulos ao crédito deve influenciar tanto a atividade econômica quanto a percepção de risco fiscal.

Segundo ele, o Banco Central já reconheceu esse risco na decisão mais recente do Comitê de Política Monetária (Copom). Na avaliação do economista, esse cenário pode levar a autoridade monetária a interromper o ciclo de redução dos juros e contribuir para o crescimento da dívida pública.

Alexandre Andrade, economista da Instituição Fiscal Independente (IFI), compartilha dessa avaliação. Para ele, o principal efeito macroeconômico das medidas será exigir uma taxa Selic mais elevada do que seria necessária sem esses estímulos.

Andrade também afirma que parte das iniciativas reduz a eficiência da política monetária ao ampliar o crédito direcionado, cujas taxas não acompanham as condições do mercado.

Já Felipe Salto, ex-diretor-executivo da IFI e sócio da corretora Warren Rena, considera que parte das críticas ao pacote é exagerada. Segundo ele, embora as medidas tenham motivação eleitoral e impulsionem a demanda em um período de juros elevados, elas não podem ser comparadas às adotadas por governos anteriores.

O economista afirma que, no caso dos combustíveis, “qualquer governo teria feito algo em resposta a uma guerra”. Ele também considera positivo o fato de o governo ter apresentado compensações fiscais para parte das medidas.

Por outro lado, Salto pondera que o estímulo à demanda ocorre justamente em um momento de política monetária restritiva, o que tende a pressionar os juros futuros e elevar o custo da dívida pública. Ele lembra ainda que o governo não conseguiu cumprir a meta de encerrar o mandato com superávit primário prevista no arcabouço fiscal, mas ressalta: “Não acho que há descontrole nem crise fiscal.”

(*) Com informações da Folha Press

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