Durante as férias escolares, celular, tablet, televisão e videogame acabam virando “babás digitais” em muitas casas. A cena é comum: a criança acorda sem a rotina da escola, os pais seguem trabalhando, o calor limita as saídas, nem sempre há dinheiro para colônia de férias e os espaços seguros para brincar parecem insuficientes. Nesse contexto, a tela aparece como uma solução rápida: distrai, reduz o barulho da casa e oferece aos adultos alguns minutos de silêncio.
Por isso, falar sobre telas nas férias exige cuidado. Não se trata de culpar pais e mães, nem de ignorar a realidade das famílias. Em muitos lares, a tecnologia entra como apoio possível diante da sobrecarga. O problema começa quando ela deixa de ser uma ferramenta pontual e passa a organizar quase todo o dia da criança.
Um estudo publicado pelo CDC em 2025, com crianças e adolescentes de 6 a 17 anos, encontrou associação entre quatro horas ou mais por dia de tela recreativa e maior risco de ansiedade, depressão, problemas de comportamento e sintomas de TDAH. Parte dessa relação parece passar por fatores muito presentes nas férias: menor atividade física, sono insuficiente e horários irregulares para dormir. A Sociedade Brasileira de Pediatria, no documento Menos Telas, Mais Saúde, também reforça que o cuidado digital deve proteger aquilo que sustenta o desenvolvimento infantil: sono adequado, movimento corporal, brincadeiras, convivência familiar, supervisão de conteúdo e segurança no ambiente virtual.
A . Quando usada em excesso, tende a ocupar o lugar de experiências fundamentais para o desenvolvimento: brincar, correr, conversar, imaginar, lidar com o tédio e aprender a esperar. A criança fica entretida, mas não necessariamente regulada.
Do ponto de vista emocional, esse é um ponto importante. Crianças ainda estão desenvolvendo recursos para lidar com frustração, limites e desconfortos. Quando todo sinal de tédio ou irritação é rapidamente preenchido por vídeos, jogos ou desenhos, elas perdem oportunidades de construir estratégias internas de autorregulação. Aos poucos, o aparelho deixa de ser passatempo e passa a funcionar como resposta para qualquer incômodo.
Nas férias, esse ciclo costuma se intensificar. Sem escola, sem horários definidos e com mais tempo livre, a criança pode passar horas alternando entre celular, televisão e videogame. Para os pais, retirar a tela depois de longos períodos de uso vira uma negociação desgastante. A criança protesta, chora, se irrita; o adulto, cansado, muitas vezes devolve o aparelho. Não por falta de amor, mas por exaustão.
A saída não é transformar a tecnologia em vilã absoluta, nem exigir férias perfeitas, cheias de atividades criativas todos os dias. A proposta é criar combinados possíveis: definir horários para telas, evitar o uso próximo da hora de dormir, fazer pausas, escolher melhor os conteúdos e alternar o digital com atividades simples, como brincar, desenhar, ajudar em pequenas tarefas, ler, caminhar, conversar com avós ou inventar uma brincadeira.
Também é importante que os adultos observem o próprio uso. Crianças aprendem muito mais pelo ambiente do que pelo discurso. Quando a casa inteira vive conectada, fica mais difícil convencer os filhos de que a tela precisa ter limite. O cuidado digital deve ser uma construção familiar, não apenas uma ordem direcionada à criança.
Nas férias, a pergunta principal talvez não seja apenas “quanto tempo de tela meu filho pode usar?”, mas “o que a tela está substituindo?”. Se está substituindo sono, movimento, vínculo, brincadeira, conversa e presença, é sinal de alerta. No fim, o desafio não é declarar guerra à tecnologia, mas devolver à criança outras formas de descanso, prazer e regulação emocional. A tela pode até distrair por um tempo, mas não deve ser o lugar onde a criança passa a maior parte das suas férias.

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