Esses dias estava lembrando que não há expressão que mais tenha ouvido na vida como “se Deus quiser”. É engraçado porque não costumo usá-la e me parece óbvio que Ele há de querer desde que, além de pedir de mãos juntas em prece, também as coloque na massa para fazer acontecer. É algo que vez ou outra repito nestes artigos: a lei de causa e efeito é justa e infalível, ainda que o tempo corra alheio à nossa vontade de querer tudo para ontem, sem respeitar o processo de merecimento.

Se Deus quiser é como aquela estrofe da música Sereníssima, da Legião Urbana, cujo verso diz “não acredito em nada além do que duvido”, que também não faz o menor sentido por ser indiscutível que tudo é – ou deveria ser – questionável, uma vez que nada é absoluto ou permanente na vida e no tempo. Saber que ela é curta ajuda a dar valor ao presente e projetar o futuro, sem esperar que ele aconteça unicamente se Deus quiser, mas quando atuarmos para fazer jus e agradecer o que recebermos na medida do próprio esforço empreendido.

Lamento não crer na ideia de esperar pelo milagre de braços cruzados, escorado na parede sem fazer nada e ainda torcendo o canto da boca porque Deus está meio atrasado no que Lhe foi pedido, afinal, “estou precisando dessa graça e minha parte em ir à missa todos os domingos faço religiosamente”. Infelizmente, “se Deus quiser” acabou se tornando a desculpa de quem faz pouco ou quase nada para justificar a esperança de merecer a bênção sem mover uma palha. E, ao receber apenas uma parte do que pediu, ainda se chatear porque Deus quis só isso para mim (mas a parte de rezar no ar-condicionado, essa fiz tão bem que até dormi).

Então, devemos ser ateus para crer na certeza da razão muito mais do que na força da fé, certo? Creio que não! Tenhamos fé em dias e momentos melhores, de que as provações serão vencidas porque não barganharemos promessas sem esforço, e sim trabalhando para inspirar, ensinando que além da obrigação de orar e vigiar também há de agir. É pedir forças sabendo que haverá muito esforço investido em Seu nome porque Deus quis assim quando fiz a minha parte. Gosto que crer que é como Ele quer que funcione, em tudo dando graças, vivendo com alegria, perseverando com disciplina, sabendo que quem não buscar, não encontrará, assim como para quem não bater, a porta jamais se abrirá. É hora de entender que Deus não é mero tirador de pedidos no iFood celestial. Não existe ganho sem esforço no que é lícito e duradouro, e muito menos fé em coisa errada ou rogando que Ele garanta o prêmio da loteria, quando ele sabe o que será feito com o dinheiro.

Recordo de Santo Agostinho, o primeiro santo que quis estudar, e que de homem comum, adepto dos prazeres e facilidades do mundo, passou a religioso convicto após uma conversão dolorosa, que relata detalhadamente em “Confissões”, livro que escreveu perto do ano 400 d.C., apresentando momentos de clareza pessoal incontestáveis, como quando observa que “Deus estava comigo, mas eu não estava com Ele. É necessário fazer o dever de casa, olhando para dentro para que não nos permitamos mais enganar a nós mesmos com as desculpas que procuramos para diminuir o peso de quem somos e as responsabilidades que temos com o mundo, porque não vivemos a sós, nem apenas para nós. Assim, se Deus quiser, e eu fizer a minha parte com amor, dedicação e boa vontade, não mais serei o guia de minha própria queda.

Igor Menezes Cordovil é Gestor de Marketing & Inteligência de Mercado do Grupo FAMETRO, Especialista em Política e Estratégia pela Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG), e MBA em Marketing, Consumo e Neurociência pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS). Contato: [email protected]

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Ainda bem.