“Me avisa quando chegar.” “Quer que eu vá buscar você?” “Está tudo bem?”
Em uma relação afetiva, preocupação, cuidado e interesse fazem parte do vínculo. Amar também envolve querer saber se o outro está bem, oferecer ajuda e compartilhar a vida. O problema começa quando esse cuidado deixa de respeitar escolhas e passa, pouco a pouco, a limitar a autonomia do outro.
Existe uma diferença importante entre afeto e controle. No afeto, há espaço para confiança, autonomia e discordância; no controle coercitivo, surgem vigilância, cobranças, isolamento, intimidação e restrições que começam a reduzir a liberdade do parceiro. Nem sempre essa mudança é percebida de imediato. Uma preocupação com a roupa pode virar crítica frequente, a curiosidade sobre amizades pode se transformar em pressão para afastá-las, perguntar onde a pessoa está pode evoluir para exigir localização em tempo real, e o compartilhamento de senhas, antes voluntário, pode se tornar obrigação. Aos poucos, o que parecia cuidado passa a interferir nas escolhas, nos comportamentos e até nos silêncios.
Os números ajudam a mostrar por que essa conversa importa. No primeiro semestre de 2026, o Ligue 180 registrou 74.396 denúncias, 19% a mais do que no mesmo período de 2025. Neste ano, em que a Lei Maria da Penha completa 20 anos, o Agosto Lilás reforça justamente a necessidade de reconhecer formas de violência que nem sempre deixam marcas visíveis.
Esse controle também pode alcançar o ambiente digital. Estudos sobre violência facilitada por tecnologia descrevem práticas como monitoramento de celular, vigilância de redes sociais, rastreamento de localização e controle de contas digitais. O ponto de atenção não está no compartilhamento em si, mas quando ele deixa de ser uma escolha e passa a vir acompanhado de cobrança, obrigação ou constrangimento.
Talvez, então, a pergunta mais importante não seja apenas “ele ou ela se preocupa comigo?”, mas: “eu continuo me sentindo livre para decidir, discordar, manter meus vínculos e fazer escolhas?”
Reconhecer sinais não significa rotular uma relação a partir de uma discussão ou de um episódio isolado. Relações são complexas. Mas, quando isolamento, vigilância, restrições e perda de autonomia começam a se repetir, é importante não minimizar o que está acontecendo.
Pedir ajuda também não precisa começar por uma denúncia formal. Pode começar em uma conversa com alguém de confiança, no atendimento psicológico, em um serviço de saúde ou na rede de proteção. Em situações de risco, ameaças ou violência, é importante priorizar a própria segurança e buscar orientação especializada. O Ligue 180 funciona gratuitamente, 24 horas por dia, com acolhimento, orientação sobre direitos e encaminhamento para os serviços disponíveis; em situações de emergência ou risco imediato, o canal indicado é o 190.
Neste Agosto Lilás, reconhecer também é uma forma de proteção. Nem toda violência começa de maneira evidente; às vezes, ela se instala quando a liberdade vai diminuindo e o receio de contrariar o outro passa a orientar escolhas. Relações saudáveis não exigem silêncio para evitar conflito, nem perda de autonomia para preservar o vínculo. Onde há afeto, também precisa haver respeito, escolha e espaço para continuar sendo quem se é.

