Às vezes, a mudança é sutil. A pessoa começa a se afastar, perde o interesse por atividades que antes faziam parte da rotina, parece mais cansada, irritada ou silenciosa. Quando alguém pergunta se está tudo bem, a resposta pode ser simplesmente: “Estou.”

Nem todo sofrimento é facilmente colocado em palavras. E nem toda mudança de comportamento significa que exista um risco grave. Mas perceber quando alguém não parece estar como antes pode abrir espaço para algo essencial: uma conversa acolhedora, sem julgamento e, quando necessário, a aproximação do cuidado profissional.

É essa uma das principais reflexões do Setembro Amarelo. A prevenção não começa apenas diante de uma crise. Ela também acontece quando ampliamos nossa capacidade de reconhecer mudanças, falar sobre saúde mental e reduzir o estigma que dificulta a busca por ajuda.

O suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial. Não existe um comportamento único capaz de prever quem está em risco, e sinais como isolamento, alterações de humor ou perda de interesse não devem ser interpretados isoladamente. Uma revisão sistemática identificou que retraimento social, alterações emocionais intensas e sensação de estar sem saída podem aparecer em estados de crise, mas os autores reforçam que prever individualmente um comportamento suicida continua sendo difícil (MELZER; FORKMANN; TEISMANN, 2024).

Outro estudo recente ajuda a compreender por que não podemos depender apenas de um pedido explícito de ajuda. Peterkin et al. (2025) analisaram 6.770 adultos, de 12 países, com histórico de ideação suicida, e observaram que parte deles já havia ocultado esses pensamentos inclusive de profissionais de saúde. Isso não significa que toda pessoa mais quieta ou distante esteja em risco. Significa que o sofrimento nem sempre é verbalizado claramente.

Então, como podemos ajudar?

O primeiro passo é aproximar-se com respeito. Em vez de cobranças como “você precisa reagir” ou “não tem motivo para ficar assim”, uma pergunta simples, como “Tenho percebido que você está diferente. Quer conversar?”, pode abrir espaço para a escuta. Quando houver uma preocupação maior, falar de forma direta e acolhedora sobre o que a pessoa está sentindo não aumenta o risco. A Organização Mundial da Saúde reforça que conversar abertamente sobre suicídio pode favorecer a expressão do sofrimento e a busca por ajuda (OMS, 2026).

Familiares e amigos não precisam assumir sozinhos a responsabilidade pelo cuidado. Acolher é importante, mas ajudar essa pessoa a chegar até um profissional ou serviço de saúde também faz parte da prevenção. Psicólogos, psiquiatras, atenção básica e Centros de Atenção Psicossocial podem compor essa rede. Talvez essa seja a mensagem mais importante do Setembro Amarelo: prevenção também é presença. É perceber sem rotular, perguntar sem julgar, escutar sem minimizar e ajudar a construir caminhos de cuidado. Nem sempre teremos a resposta certa, mas podemos oferecer algo fundamental: presença e disponibilidade para que o sofrimento não precise ser enfrentado em silêncio.

Se você ou alguém próximo estiver em sofrimento, procure uma Unidade Básica de Saúde, CAPS ou outro serviço de saúde. O Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia. Em situações de urgência, procure um serviço de emergência ou acione o SAMU pelo 192.

Ana Claudia Pinto Oliveira é neuropsicóloga, diretora clínica do Instituto Desenvolver, com mestrado em Educação pela Universidade dos Pueblos de Europa; e pesquisadora do Laboratório de Avaliação Psicológica da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

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