Belém se prepara para receber a COP30 em 2025, e com ela, os olhos do mundo voltados para a Amazônia. Chefes de Estado, cientistas, ativistas e representantes de organizações internacionais convergem para a capital paraense para discutir o futuro do clima global.

Mas há uma pergunta que precisa ser feita antes que a conferência comece para valer: desta vez, finalmente, o mundo irá escutar quem vive, conhece e defende a Amazônia há séculos? Ou assistiremos a mais um capítulo da longa história de decisões tomadas sobre a região sem a participação efetiva de seus povos?

É neste contexto que a obra “História da Amazônia: do período pré-colombiano aos desafios do século XXI”, do escritor e intelectual manauense Márcio Souza, falecido em agosto de 2024, se impõe como leitura obrigatória para todo cidadão preocupado com o destino da floresta e do planeta.

Mais do que um livro de história, a obra de Souza é um manifesto político e um apelo à consciência, pois o que está em jogo na Amazônia não é só uma questão ambiental, mas o resultado de séculos de colonialismo que precisa ser urgentemente superado.

Como a gente sabe, Márcio Souza não é um acadêmico distante dos debates contemporâneos. Nascido em Manaus em 1946, autor de obras consagradas como “Galvez, Imperador do Acre” e “Mad Maria”, ele construiu sua trajetória literária e intelectual como defensor incansável da Amazônia e de seus povos.

Sua “História da Amazônia” é fruto de mais de duas décadas de pesquisa e representa algo inédito na historiografia brasileira: uma narrativa abrangente, profunda e rigorosa sobre a região, contada de dentro, por quem carrega em si a vivência amazônida.

A obra percorre 40 mil anos de história, desde a chegada dos primeiros humanos à região até os desafios do século XXI. Mas não se trata de mero exercício de erudição.

Cada página do livro dialoga diretamente com as questões que estarão na mesa durante a COP30: como chegamos ao ponto de ameaçar irreversivelmente o maior bioma tropical do planeta? Por que, apesar de todo conhecimento científico acumulado, continuamos destruindo a floresta? E, principalmente, que alternativas existem para mudar esta rota suicida?

A resposta de Souza é incômoda: a destruição da Amazônia não é acidente, desvio ou resultado de ignorância. É consequência de um projeto histórico de exploração colonial que nunca foi verdadeiramente superado.

Desde a chegada dos europeus no século XVI até as grandes obras de “integração nacional” do século XX, a Amazônia sempre foi tratada como fronteira de recursos, espaço vazio a ser ocupado, território cuja população nativa era obstáculo a ser removido ou controlado.

Foto: Reprodução

Disfarce de desenvolvimento

Uma das contribuições mais importantes do livro de Márcio é demonstrar a continuidade das lógicas coloniais mesmo após a independência do Brasil. A professora Rita Olivieri-Godet, da Universidade Rennes 2, destaca em sua análise da obra que Souza revela “as formas segregacionistas de apropriação social do espaço amazônico” que atravessam toda a história da região.

O diagnóstico é fundamental para entendermos o momento atual. Quando, em 2025, representantes de governos e corporações chegarem a Belém para discutir o futuro da Amazônia, muitos deles estarão pensando em “oportunidades de negócio”, “créditos de carbono”, “bioeconomia” e outros termos que, por mais bem-intencionados que pareçam, frequentemente escondem a mesma lógica colonial: a Amazônia como recurso a ser explorado, gerenciado e controlado por agentes externos.

Márcio nos força a olhar no espelho da história. A Transamazônica dos anos 1970, vendida como “integração nacional”, resultou em devastação ambiental e social.

Os grandes projetos de mineração, apresentados como “progresso”, deixaram crateras na floresta e miséria nas comunidades. Os incentivos ao desmatamento para criação de gado, prometendo “desenvolvimento”, transformaram floresta em pasto pobre.

Agora, no século XXI, sob novas roupagens e novos discursos, corremos o risco de repetir os mesmos erros se não tivermos a coragem de questionar radicalmente o modelo de relação que estabelecemos com a Amazônia.

Que protagonismo ?

Em entrevistas sobre seu livro, conforme se pode acessar na internet, Márcio Souza faz uma observação que deveria repercutir forte nos corredores da COP30: “as pessoas da região têm mágoa do Brasil”. A frase sintetiza séculos de abandono, exploração e desconsideração.

A Amazônia enriqueceu o país durante o ciclo da borracha, mas Manaus e Belém não receberam de volta investimentos proporcionais. A Amazônia forneceu recursos naturais, energia e território para grandes projetos nacionais, mas suas populações continuam entre as mais pobres e desassistidas do país.

A Amazônia foi queimada para virar pasto e lavoura que enriqueceram poucos, enquanto ribeirinhos, indígenas e pequenos agricultores foram expulsos de suas terras como vagabundos imprestáveis ao convívio social dito moderno.

A mágoa não é ressentimento vazio. É consciência histórica de injustiças estruturais que precisam ser reparadas. E a COP30 oferece uma oportunidade única, talvez a última, de transformar tal mágoa em protagonismo.

Pela primeira vez, uma conferência climática global acontece no coração da Amazônia. Não pode ser só uma questão logística. Precisa ser uma decisão política de colocar os amazônidas no centro do debate. Mas colocá-los não como figurantes exóticos ou vítimas a serem salvas, mas como protagonistas com conhecimento, experiência e propostas concretas sobre o futuro de seu território.

Conhecimento tradicional

Um dos méritos do livro de Souza é valorizar a pluralidade étnica e cultural da Amazônia. A região abriga centenas de povos indígenas, comunidades quilombolas, populações ribeirinhas e urbanas, cada qual com seus saberes, práticas e formas de relação com a floresta.

Durante milênios, estas populações desenvolveram tecnologias sofisticadas de manejo ambiental, sistemas agrícolas de baixo impacto, conhecimentos farmacológicos baseados na biodiversidade local e formas de organização social adaptadas ao ambiente amazônico.

Este patrimônio de conhecimento tradicional, contudo, foi sistematicamente desvalorizado pela visão colonial que enxergava apenas “atraso” e “primitivismo”.

Como alerta Márcio, “a cada metro quadrado de floresta destruído, perdem-se riquezas que nem conhecemos por ignorância”. E a ignorância não é apenas sobre espécies vegetais ou animais. É sobre formas de conhecimento, modos de vida e alternativas de desenvolvimento que a humanidade está perdendo sem sequer registrar.

A COP30 precisa ser o espaço onde ciência ocidental e conhecimentos tradicionais finalmente dialoguem em pé de igualdade. E não como concessão paternalista, mas como reconhecimento de que os povos que conseguiram manter a floresta em pé por milênios têm muito a ensinar sobre sustentabilidade a uma civilização industrial que, em poucos séculos, colocou o planeta à beira do colapso climático.

Economia sustentável

Márcio dedica atenção especial à questão da economia sustentável, e com razão. Este será, inevitavelmente, um dos temas centrais da COP30. Mas é preciso cuidado. “Economia sustentável” virou expressão da moda, repetida em discursos oficiais, relatórios corporativos e programas de governo.

Na prática, porém, isso frequentemente se reduz a projetos-piloto de pequena escala, iniciativas de marketing verde ou, pior, serve como biombo para a continuidade de práticas predatórias.

A mensagem de Souza à COP30 é que as coisas devem ir além dos discursos. É preciso ruptura real com o modelo extrativista, o que significa reconhecer que a floresta em pé vale mais do que derrubada. Significa investimento maciço em pesquisa sobre biodiversidade, biotecnologia e produtos florestais.

Significa valorização e remuneração justa das populações que preservam a floresta. Significa regularização fundiária que garanta terras aos povos tradicionais. Significa infraestrutura de qualidade nas cidades amazônicas. Significa universidades e centros de pesquisa robustos na região, não apenas nas capitais do Sul e Sudeste.

Economia sustentável na Amazônia não pode ser pensada como concessão caridosa ou compensação marginal. Precisa ser o projeto econômico central do país, com investimentos compatíveis com a magnitude do desafio e com o valor estratégico da floresta para o futuro do Brasil e do planeta.

“Não-retorno climático”

Os dados científicos são inequívocos e aterradores. O planeta está às vésperas de ultrapassar pontos de não-retorno climático. A Amazônia já perdeu cerca de 20% de sua área original e cientistas alertam que, entre 20% e 25% de desmatamento, a floresta pode entrar em processo de “savanização” irreversível.

As consequências seriam catastróficas para a região e para todo o planeta. A Amazônia é fundamental na regulação climática global, no ciclo hidrológico continental e na manutenção da biodiversidade planetária.

A história que Márcio Souza conta não é apenas sobre o passado. É sobre como chegamos aqui, a este momento limite. E, principalmente, sobre como ainda há tempo de mudar a rota se tivermos coragem de romper com pouco mais de 500 anos de colonialismo disfarçado de “desenvolvimento”.

Esta é a mensagem central que Márcio Souza oferece à COP30: não há solução técnica, financeira ou política que funcione se não vier acompanhada de uma transformação profunda na forma como nos relacionamos com a Amazônia. Sem choro nem vela.

É preciso superar a visão colonial. É preciso reconhecer os direitos, a autonomia e o protagonismo dos povos amazônicos. É preciso valorizar conhecimentos tradicionais. É preciso construir uma economia que preserve, não que destrua. É preciso escutar quem sempre defendeu a floresta.

Amazônia como Notre-Dame

Márcio Souza usa uma metáfora poderosa em seu livro: a Amazônia é como a Catedral de Notre-Dame, “queima, mas não cai”. Esta imagem sintetiza séculos de resistência dos povos amazônicos.

Expedições escravistas, ciclos econômicos predatórios, grandes projetos desenvolvimentistas, grilagem de terras, assassinatos de lideranças. A lista de violências é longa e brutal. Mas a Amazônia e seus povos seguem resistindo.

Esta resistência, contudo, não pode ser romantizada. Cada quilômetro quadrado de floresta queimada é perda irreparável. Cada língua indígena extinta é conhecimento perdido para sempre. Cada líder assassinado é projeto de futuro interrompido. A Amazônia resiste, mas a um custo humano, ambiental e cultural gigantesco.

A COP30 precisa marcar uma virada. Não pode ser mais uma conferência onde se produzem belos documentos que não saem do papel. Não pode ser espaço de greenwashing corporativo ou de discursos vazios de autoridades.

A COP30 precisa resultar em compromissos concretos, recursos reais, mudanças estruturais. E, acima de tudo, precisa reconhecer que a solução para a crise climática passa necessariamente pela Amazônia, e que qualquer solução que não coloque os amazônidas como protagonistas está fadada ao fracasso.

Em seu livro “História da Amazônia”, Márcio insiste em uma ideia fundamental: a importância do resgate da memória amazônica. Em tempos de negacionismo histórico e científico, em tempos de “pós-verdades” e fake news, reafirmar o valor da história rigorosa é ato de resistência.

Como o próprio autor observa, “a história está sofrendo um assalto letal”. Distorcer ou apagar a história é estratégia de poder para justificar injustiças presentes e futuras.

Conhecer a história da Amazônia que Márcio nos conta é armar-se para o debate que acontecerá na COP30. É saber que quando alguém falar em “desenvolver a Amazônia”, precisamos perguntar: desenvolver para quem? A custo de quê? Beneficiando quem?

Quando falarem em “uso racional dos recursos”, precisamos lembrar que este mesmo discurso vem sendo usado há 500 anos para justificar destruição. Quando prometerem “geração de empregos”, precisamos perguntar: que tipo de emprego? Destruindo ou preservando? Enriquecendo a região ou exportando riqueza?

Memória histórica é instrumento político. É o que permite não cair nas mesmas armadilhas, não acreditar nas mesmas promessas vazias, não aceitar as mesmas soluções que já falharam mil vezes.

Questão política e moral

A mensagem de Márcio Souza à COP30 pode ser resumida assim: a Amazônia não é problema técnico a ser resolvido com mais tecnologia. Não é questão financeira a ser solucionada com mais créditos de carbono. Não é desafio gerencial a ser superado com mais governança. É, antes de tudo, questão política, ética e moral.

É preciso decidir: queremos continuar tratando a Amazônia como colônia a ser explorada, ou finalmente reconhecê-la como território de povos com direitos, culturas, saberes e projetos próprios de futuro?

Queremos continuar enriquecendo poucos enquanto destruímos o planeta, ou temos coragem de construir modelo econômico que preserve a floresta e beneficie quem vive nela? Queremos continuar decidindo sobre a Amazônia de fora para dentro, ou vamos finalmente escutar e empoderar os amazônidas?

Estas são as perguntas que deveriam permear os trabalhos da COP30. E o livro de Márcio Souza oferece o contexto histórico indispensável para respondê-las com seriedade e responsabilidade.

Neste mês de novembro de 2025, Belém recebe o mundo. Que o receba não como uma terra passiva a decisões externas, mas como um ser consciente de sua história, orgulhoso de sua identidade, conhecedor de seu valor e determinado a ser protagonista de seu próprio futuro.

Este é o alerta que Márcio Souza nos faz. E este é o desafio que a COP30 nos coloca. A Amazônia queima, mas não cai. E é hora de garantir que ela nunca mais precise queimar para provar sua resiliência. É imprescindível que a abracemos com os olhos da racionalidade para que ela volte a florescer.

Foto: Reprodução

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