A crise política e energética da Venezuela voltou ao centro do tabuleiro geopolítico internacional em 2026 e passou a influenciar não apenas o mercado global de petróleo, mas também a delicada engrenagem das moedas que sustentam o comércio internacional de energia.
A recente captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, embora não tenha provocado um choque imediato nos preços, reacendeu debates estratégicos sobre oferta global, poder econômico e a hegemonia do dólar.
Dona das maiores reservas provadas de petróleo do planeta — cerca de 303 bilhões de barris — a Venezuela vive um paradoxo histórico, dizem especialistas.
Apesar do potencial colossal, a produção venezuelana atual oscila entre 800 mil e 1,1 milhão de barris por dia, menos de 1% da oferta mundial. Um contraste gritante com o passado recente, quando o país chegou a produzir cerca de 3,5 milhões de barris diários.
Décadas de má gestão, sucateamento da infraestrutura, fuga de capital humano e sanções internacionais corroeram a capacidade operacional da estatal PDVSA. O resultado é que, mesmo diante de um evento político de grande impacto, o mercado global não sentiu um abalo imediato.
Mundo superabastecido
Em 2026, o petróleo vai operar em um ambiente de abundância. A expansão da produção nos Estados Unidos, Brasil e Oriente Médio neutralizou o efeito da crise venezuelana.
Analistas projetam o barril do Brent girando entre US$ 56 e US$ 60, refletindo uma combinação de oferta elevada e crescimento moderado da demanda global.
A leitura dominante no mercado: a Venezuela, hoje, pesa pouco na equação de curto prazo. Mesmo que haja uma reconfiguração política e diplomática, a reconstrução da indústria petrolífera venezuelana exigiria anos — talvez décadas — e investimentos bilionários.
No médio prazo, entretanto, o cenário muda de figura. Caso o país consiga recuperar parte de sua capacidade produtiva entre 2027 e 2030, o retorno de volumes relevantes ao mercado internacional pode exercer uma pressão estrutural de baixa sobre os preços, empurrando o Brent para a faixa de US$ 45 a US$ 50 por barril.
Para consumidores, seria alívio. Para produtores, um desafio adicional.
Revendo estratégias
O novo contexto já provoca movimentos distintos entre as grandes petroleiras globais. A Chevron, única gigante americana ainda presente na Venezuela, viu suas ações reagirem positivamente, impulsionadas pela expectativa de protagonismo em uma eventual retomada das exportações.
Ainda assim, a empresa sabe que o risco é elevado: reconstruir campos, oleodutos e refinarias exige capital intensivo e retorno de longo prazo.
A ExxonMobil, que deixou o país após expropriações no passado, observa à distância. A mudança política pode destravar disputas bilionárias e abrir espaço para compensações financeiras, mas o retorno operacional ainda depende de garantias jurídicas sólidas — algo que o histórico venezuelano não oferece facilmente.
Para a Petrobras, o cenário é mais complexo. Embora não dependa diretamente do petróleo venezuelano, a estatal brasileira sofre impactos indiretos. A possível retomada do óleo pesado da Venezuela pressiona preços globais, aumenta a concorrência em mercados asiáticos e pode reduzir margens de exportação.
Não por acaso, o mercado reagiu com cautela, penalizando as ações da companhia no curto prazo.
Já refinarias especializadas em petróleo pesado, como Valero e Marathon, tendem a se beneficiar, assim como empresas de serviços petrolíferos, que enxergam na Venezuela um vasto canteiro de obras energéticas adormecido.
Petróleo, dólar e a transição
Além do barril, a crise venezuelana dialoga com um tema ainda mais profundo: o futuro do sistema monetário internacional. Desde os anos 1970, o petróleo é majoritariamente negociado em dólares, consolidando o chamado “petrodólar” como pilar da hegemonia americana.
Esse sistema, porém, começa a apresentar fissuras. Não se trata de um colapso iminente, mas de uma transição gradual.
A China ampliou contratos de petróleo denominados em yuan, a Rússia busca vender energia em rublos, e países sob sanções — como Venezuela, Irã e Rússia — recorrem a moedas alternativas e acordos bilaterais para contornar restrições financeiras.
O dólar segue dominante, sobretudo pela liquidez, profundidade financeira e confiança institucional que nenhuma outra moeda conseguiu replicar. No entanto, a diversificação monetária avança, criando um sistema mais fragmentado, multipolar e, potencialmente, mais volátil.
Moedas em disputa
Conforme os especialistas, em 2026 o retrato que se desenha é o de um mercado de petróleo relativamente confortável em termos de oferta, com preços medianos e pressão limitada de curto prazo.
A Venezuela, apesar de seu peso simbólico e estratégico, permanece como uma promessa de longo prazo — mais relevante como fator geopolítico do que como fornecedor imediato.
Ao mesmo tempo, o comércio global de energia passa a refletir uma mudança silenciosa, porém profunda: o enfraquecimento gradual da hegemonia absoluta do dólar e o surgimento de alternativas regionais.
Para países produtores, consumidores e investidores — inclusive no Brasil e na Amazônia, onde logística, energia e geopolítica se cruzam — entender esse novo jogo é essencial.
O petróleo continua movendo o mundo. Mas, cada vez mais, quem define as regras não é apenas quem tem o óleo no subsolo, e sim quem controla as moedas, os fluxos financeiros e as alianças estratégicas que sustentam o mercado global.
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