Antes que alguém acuse o presente cronista de antiamericanismo tropical, convém esclarecer logo de saída: não é Donald Trump que anda roubando o petróleo da Petrobras. Não tenho a menor dúvida de que, se fosse ele, o negócio já estaria registrado em coletiva de imprensa, com bandeira americana ao fundo e um boné escrito “torne a América grande novamente”.

O que temos é coisa nossa, bem nossa, autenticamente nacional e, portanto, irremediável.

Aliás, se o Brasil tivesse sido descoberto em pleno carnaval do Rio de Janeiro — como observou com precisão cirúrgica o filósofo de botequim Oswald de Andrade — talvez hoje fôssemos um país mais típico. Discordo apenas num detalhe: mais típico do que isso é difícil. O petróleo já teria sido roubado ainda durante o desfile das caravelas, fantasiado de nota fiscal, escoltado por um caminhão-tanque e aplaudido pela comissão julgadora.

A cena revelada pelas autoridades, segundo editorial de O Globo da última terça-feira (28), é de um lirismo tropical constrangedor. Em Guapimirim, bucólica cidade fluminense, uma fazenda pacata abriga vacas, pasto e um oleoduto discretamente perfurado, sugado com a delicadeza de quem toma caldo de cana. Cinco caminhões-tanque estacionados, três já cheios de petróleo, prontos para cair no samba da logística interestadual.

A propriedade pertence a herdeiras de ilustres personagens do jogo do bicho, mas a polícia faz questão de esclarecer que não há evidência de envolvimento delas. O petróleo, como bom brasileiro, tomou iniciativa própria, cansou da vida monótona nos dutos e resolveu cair na estrada. É o êxodo oleoso rumo à realização pessoal.

Os números confirmam o vigor da farra. Depois de anos de queda, o furto voltou a subir. Em São Paulo, Minas, Espírito Santo, Maranhão e adjacências, o petróleo circula mais do que ministro em crise. Há quadrilhas especializadas, empresas cúmplices, clientes fiéis e uma cadeia produtiva tão organizada que, se fosse legal, poderia até apresentar projeto para receber incentivo do BNDES.

Tudo funciona com precisão suíça — só que suíça de carnaval. Caminhões seguem rotas definidas, documentos fiscais frios como chope mal tirado passam pelas barreiras, e o dinheiro é lavado com a naturalidade de quem lava copo de boteco às três da manhã. Se existe crime no Brasil com espírito empreendedor, é esse.

A Transpetro investe em tecnologia, inteligência e prevenção. O crime, educado, agradece, estuda o manual e se aperfeiçoa. É uma parceria involuntária: cada avanço da segurança gera um salto criativo da bandidagem. O setor de combustíveis, outrora estratégico, agora flerta perigosamente com o crime organizado, que abastece melhor, mais rápido e com menos discurso.

Diante disso tudo, volto à sugestão indecorosa: se as autoridades brasileiras não derem conta, talvez devêssemos chamar um xerife estrangeiro, só para dar um susto. Não para resolver — Deus nos livre — mas para mostrar que, em outros carnavais, quando o sujeito rouba petróleo demais, acaba preso sem direito a abadá.

Mas a verdade é que não precisamos de Trump, nem de sanção, nem de porta-aviões. Precisamos apenas de um Estado que funcione fora do expediente, de autoridades que não dancem conforme a música e de um país que leve a sério aquilo que não é marchinha.

Do jeito que vai a coisa, o Brasil seguirá confirmando Oswald: um país descoberto em clima de festa permanente, onde todo mundo dança, ninguém vigia, e até o petróleo sai sambando, enquanto a conta fica na mesa do bar.

Juscelino Taketomi
Juscelino Taketomi

Leia mais: