O retorno às aulas costuma ser associado à organização de materiais, ajuste de horários e retomada de compromissos. No entanto, essa transição envolve muito mais do que logística. A volta à rotina escolar mexe diretamente com a saúde emocional de crianças, adolescentes e seus responsáveis parentais.

Depois de um período de férias, em que os horários ficam mais flexíveis e as exigências diminuem, o cérebro precisa se readaptar a uma estrutura mais rígida. Pesquisas sobre transições escolares e saúde mental indicam que mudanças bruscas de rotina podem aumentar sintomas de ansiedade, irritabilidade e dificuldades de concentração, especialmente em jovens (Eccles e Roeser, 2011). O contraste entre dias mais livres e a volta às cobranças escolares pode gerar insegurança, medo de não dar conta e sensação de sobrecarga.

Além das demandas acadêmicas, o ambiente escolar envolve desafios sociais que exigem energia emocional. Reencontrar colegas, lidar com expectativas de desempenho e se readaptar à convivência em grupo podem gerar queixas físicas, alterações no sono, desânimo ou maior sensibilidade. O sono, por exemplo, está diretamente ligado à regulação do humor e da ansiedade em jovens (Owens, 2014). Esses sinais nem sempre indicam um problema grave, mas mostram que o processo de readaptação está em curso e merece atenção. Ao mesmo tempo, a escola também pode funcionar como um espaço de proteção emocional. A rotina estruturada, o contato com pares e a presença de adultos de referência favorecem a sensação de segurança, elemento essencial para o bem-estar psicológico, especialmente quando o ambiente é previsível e sustentado por relações estáveis.

Nesse período, pequenas atitudes fazem grande diferença. Para as crianças e adolescentes, é importante retomar gradualmente os horários de sono, reduzir o uso de telas à noite e manter momentos de lazer. A regularidade do sono está associada a melhor saúde emocional e desempenho cognitivo (Mindell e Williamson, 2018). Conversas abertas sobre expectativas e medos ajudam a nomear emoções e diminuem a sensação de que é preciso enfrentar tudo sozinho. Incentivar pausas, organização do tempo e atividades físicas também contribui para reduzir o estresse.

Os responsáveis parentais também precisam de cuidado. A volta às aulas muitas vezes vem acompanhada de preocupações financeiras, reorganização da rotina familiar e pressão por acompanhar o desempenho dos filhos. Esse acúmulo pode gerar tensão e cansaço emocional. Estudos sobre estresse familiar mostram que a sobrecarga dos adultos impacta diretamente o bem-estar emocional das crianças (Prime, Wade e Browne, 2020). Buscar apoio, dividir tarefas e estabelecer limites realistas são atitudes que protegem a saúde mental de toda a família. Crianças percebem o estado emocional dos adultos e se sentem mais seguras quando encontram figuras calmas e disponíveis.

É importante lembrar que nem toda dificuldade de adaptação é sinal de doença, mas toda mudança merece acolhimento. Observar alterações persistentes de humor, isolamento intenso ou queda acentuada no rendimento pode indicar a necessidade de procurar apoio profissional. Quanto mais cedo o sofrimento é reconhecido, maiores são as chances de prevenção de quadros mais graves.

A volta às aulas, portanto, é também um convite ao cuidado emocional coletivo. Mais do que exigir desempenho imediato, este é um momento de reconstruir rotinas com escuta, paciência e presença. Quando a saúde mental é considerada parte do processo educativo, aprender se torna uma experiência mais leve, possível e humana para todos.

Ana Claudia

Leia mais: