No meu dia a dia no consultório, percebo que uma das barreiras mais difíceis de derrubar não é o vírus ou a bactéria em si, mas o silêncio.
Falar sobre Infecções Sexualmente Transmissíveis, as famosas ISTs, ainda traz uma carga de estigma e vergonha que impede muitas pessoas de buscarem o diagnóstico precoce. Mas, como sempre digo aos meus pacientes: o corpo não entende de julgamentos, ele entende de cuidados.
Os números são impressionantes e nos mostram que ninguém está imune. Estima-se que, a cada dia, mais de 1 milhão de pessoas ao redor do mundo contraiam uma infecção por meio do contato íntimo.
A faixa etária mais atingida está entre os 15 e 49 anos, justamente o período de maior atividade sexual e reprodutiva. Porém, o dado que mais me preocupa como médico é este: a grande maioria dessas infecções não apresenta sintomas imediatos. É o perigo invisível.
Quando falamos em ISTs, muita gente pensa apenas em um incômodo passageiro. A realidade, no entanto, é muito mais profunda. Essas infecções afetam diretamente a saúde sexual e o futuro reprodutivo do indivíduo.
Uma infecção não tratada pode evoluir para casos de esterilidade, câncer, complicações graves durante a gravidez e, claro, aumentar consideravelmente as chances de contágio pelo vírus do HIV.
Entre as principais que acompanho aqui na urologia, destaco o HIV, o HPV (grande vilão nos casos de câncer de colo de útero e pênis), a sífilis (que tem apresentado um aumento alarmante de casos), a Herpes genital, as Hepatites e as Uretrites, como a gonorreia e a clamídia.
Um ponto fundamental que sempre esclareço no consultório é o tempo de manifestação. O contato aconteceu hoje, mas os sintomas podem aparecer em alguns dias, meses ou levar anos.
Por isso, conhecer o próprio corpo é a nossa primeira linha de defesa. Fique atento a sinais nos órgãos genitais, mas também na boca ou nas mãos.
Os principais alertas são secreções ou corrimentos, feridas ou úlceras, dor ao urinar ou durante a relação sexual, além de coceira e febre sem causa aparente.
Se você notou qualquer um desses sinais, não tente a automedicação. O “remédio do amigo” pode mascarar o problema e permitir que a infecção avance silenciosamente.
A boa notícia é que temos as ferramentas para vencer essa batalha. O uso do preservativo, tanto masculino quanto feminino, continua sendo o método mais eficaz.
Somado a isso, temos a vacinação, essencial para prevenir doenças como o HPV e as Hepatites. Muitas pessoas não sabem, mas o Brasil possui um dos sistemas mais completos do mundo para lidar com esse tema.
O SUS fornece gratuitamente desde os preservativos e testes rápidos até o tratamento completo e acompanhamento especializado. Não há desculpa para a negligência.
Mesmo com tantas campanhas e acesso fácil ao diagnóstico, as ISTs continuam liderando as estatísticas de consultas médicas. A prevenção é diária.
O diagnóstico não é uma sentença, é o primeiro passo para a sua cura e para a proteção de quem você ama e quer bem. Bora conversar?

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