Vivemos um tempo em que quase todo mundo sabe o que deveria fazer para ter mais equilíbrio emocional. Dormir mais, diminuir excessos, organizar a rotina, colocar limites, respirar, fazer terapia, reduzir telas. O vocabulário do autocuidado está por toda parte.
Ainda assim, muitas pessoas seguem exaustas, reativas, sem foco, com sensação de sobrecarga e sem espaço interno para lidar com os altos e baixos da vida. Talvez porque o ponto central tenha sido perdido: cuidado emocional não é assunto bonito para conversa. É prática cotidiana.
A Organização Mundial da Saúde reforça que saúde mental não se limita à ausência de transtornos, mas envolve capacidade de lidar com estressores, funcionar de forma produtiva e manter vínculos e participação social (WHO, 2022). Esse conceito é importante porque tira a pressão de “estar bem o tempo todo” e coloca o foco no essencial: conseguir atravessar a vida com recursos internos mínimos, mesmo em fases difíceis.
Para avaliar se isso está em dia, o modelo de bem-estar psicológico de Ryff (1989) é uma boa referência. Ele reúne dimensões como propósito de vida, relações positivas, autonomia, domínio do ambiente, crescimento pessoal e autoaceitação.
Quando essas áreas estão minimamente cuidadas, a pessoa tende a se sentir mais estável e coerente com o que valoriza. Quando fragilizam, a vida vira resposta automática às urgências: o corpo segue, mas a mente parece sempre atrasada.
Essa diferença fica ainda mais clara quando olhamos para o estresse. Lazarus e Folkman (1984) explicam que o estresse não depende apenas do evento, mas da avaliação que fazemos da situação e dos recursos que percebemos para enfrentá-la.
Em períodos em que tudo vira exigência, é comum a mente oscilar entre dois modos: hipercontrole, tentando dar conta de tudo, ou um recuo silencioso, adiando o essencial e vivendo no improviso. Em ambos, a sensação é parecida: falta chão e a vida vira um apagamento constante de incêndios.
É aqui que o discurso precisa virar método. Beck (1979) mostra, na Terapia Cognitivo-Comportamental, que pensamentos, emoções e comportamentos se influenciam mutuamente. Não é preciso esperar “faltar o chão” para agir melhor.
Muitas vezes, a ação vem primeiro e a emoção acompanha depois. O cuidado diário começa quando a pessoa identifica padrões automáticos, ajusta interpretações rígidas e testa comportamentos pequenos, consistentes e possíveis. A mente muda quando a rotina muda.
Por isso, a pergunta não é apenas se você sabe o que fazer. É o que você tem sustentado na prática. Porque informação sem rotina não produz transformação. E conhecimento sem propósito vira acúmulo.
Vamos para algumas práticas simples, com alto impacto, que cabem na vida real. Escolha duas e mantenha por sete dias, sem perfeccionismo.
Primeiro, proteja o básico: sono e pausas. Sem recuperação, a mente perde flexibilidade.
Segundo, reduza ruído. Menos tela e mais momentos curtos de silêncio reorganizam o pensamento.
Terceiro, faça um check-in diário de estresse: o que está sob meu controle hoje e qual é o próximo passo possível, como sugerem Lazarus e Folkman (1984).
Quarto, treine higiene cognitiva: quando surgir um pensamento absoluto, transforme em hipótese, como propõe Beck (1979).
Quinto, cuide de pelo menos uma dimensão do bem-estar de Ryff (1989) por semana: propósito, relações, autonomia, domínio do ambiente, crescimento, autoaceitação.
Sexto, observe sinais de alerta: irritação fora do padrão, insônia persistente, isolamento e apatia não são fraqueza, são aviso de que algo precisa ser ajustado.
Cuidar não é uma ideia. É uma decisão repetida. E o que sustenta a mente, no fim, é aquilo que se faz quando ninguém está olhando.

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