Uma coincidência de datas em 1967 ajuda a contar uma história maior sobre desenvolvimento econômico e efervescência cultural no Amazonas. De um lado, a criação da Superintendência da Zona Franca de Manaus, em 28 de fevereiro daquele ano. De outro, poucos meses depois, em 17 de junho, o surgimento da banda Blue Birds — dois marcos que, segundo o músico Roberto Sá Gomes, caminham juntos na transformação da cena musical local.
Beto — líder histórico da Blue Birds — destaca que a abertura da Zona Franca de Manaus ao comércio internacional foi determinante para a profissionalização da música no estado. “Foi para a cultura do estado um marco nas relações institucionais”, afirma o músico, ao lembrar que o acesso facilitado a instrumentos importados elevou o padrão sonoro das bandas amazonenses.
Ele cita marcas consagradas como Fender e Ludwig, além de equipamentos vindos da França, Itália e Japão, que passaram a integrar o cotidiano dos músicos locais. Essa modernização permitiu que repertórios internacionais — como os de The Beatles, The Rolling Stones e Frank Sinatra — fossem executados com qualidade comparável aos grandes centros.
Para Beto, essa conexão entre economia e cultura ajudou a consolidar uma geração de artistas e bandas. “Até hoje os instrumentos estrangeiros são os preferidos pela classe musical”, reforça, ao apontar o impacto duradouro daquele momento histórico.
Além da economia, vetor cultural

Criada como parte de uma estratégia de desenvolvimento regional, a SUFRAMA teve como missão principal impulsionar a economia amazônica por meio de incentivos fiscais e atração de investimentos. No entanto, seu papel extrapolou o campo econômico.
Ao longo das décadas, a autarquia também passou a apoiar iniciativas culturais, seja diretamente ou por meio do fortalecimento da economia local que sustenta artistas, eventos e espaços culturais. Sob a gestão recente de Bosco Saraiva, esse entendimento tem sido reforçado: desenvolvimento econômico e cultura são dimensões complementares.
A valorização de projetos culturais, o apoio a eventos e o reconhecimento da identidade amazônica fazem parte de uma visão mais ampla de desenvolvimento regional, na qual cultura não é apenas expressão artística, mas também ativo social e econômico.
Música e memória
Fundada em 1967 por um grupo de jovens estudantes, a Blue Birds se consolidou como uma das bandas mais importantes da história do Amazonas. Com mais de cinco décadas de atividade — hoje se aproximando dos 60 anos — o grupo atravessou gerações, mantendo-se relevante em diferentes contextos musicais.
A trajetória de Roberto Sá Gomes se confunde com a da própria banda. Integrante desde 1969 e detentor dos direitos do grupo desde 1980, ele transformou a Blue Birds em um projeto de vida. Ao longo desse período, mais de 150 músicos passaram pela formação, evidenciando seu papel como escola e referência artística.
A banda participou de momentos emblemáticos da história cultural de Manaus, como a fundação do Tropical Hotel, onde se apresentou por 35 anos, além de shows para públicos que chegaram a 50 mil pessoas — números que revelam a força do entretenimento musical na cidade nas décadas passadas.
Em 2018, o reconhecimento institucional veio com a declaração da Blue Birds como Patrimônio Cultural Imaterial do Amazonas, consolidando seu lugar na memória coletiva do estado.

Legado compartilhado
A coincidência entre as datas de criação da SUFRAMA e da Blue Birds não é apenas curiosa — ela simboliza um período de transformação profunda no Amazonas. Enquanto a Zona Franca abria portas para o mundo, a música local ganhava novos instrumentos, novas influências e maior profissionalização.
Quase seis décadas depois, tanto a SUFRAMA quanto a Blue Birds permanecem como referências em seus campos. Uma, como motor do desenvolvimento regional; a outra, como guardiã e propagadora da cultura musical amazônica.
Como resume Beto Blue Birds: “A banda faz 59 anos junto com a SUFRAMA, que é um marco histórico em nossas existências”.
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