A forma de vencer eleições no Brasil passa por mudanças há pelo menos dez anos. O modelo baseado em grandes alianças, altos investimentos e amplo tempo de televisão, gradativamente, perde força e abre espaço para estratégias centradas na comunicação digital e na proximidade com o eleitor.

Segundo cientistas políticos, campanhas com linguagem direta, presença nas redes sociais e interação constante com a população ganham relevância no cenário atual, embora os meios tradicionais ainda exerçam impacto.

Modelo tradicional perde força desde 2018

O cientista político Carlos Santiago explica que, historicamente, havia um padrão claro que apontava para o vitorioso nas disputas eleitorais. Ele afirma que os indicativos eram: investimentos financeiros expressivos, aliados políticos e maior tempo de propaganda eleitoral.

“Era uma fórmula que dava muito certo nas eleições: o candidato que tinha o maior número de partidos na sua composição política, recursos para bancar uma campanha milionária e também maior tempo de rádio e de TV. Esse, estava muito próximo de vencer as eleições e já iniciava como um grande favorito”, disse.

No entanto, ele destaca uma mudança no cenário a partir de 2018 a partir da eleição de Jair Bolsonaro como presidente da República e outros parlamentares que contavam com composições políticas menores.

“Jair Bolsonaro foi eleito presidente da república com a composição de dois partidos nanicos. Wilson Lima também, assim como foram eleitos os governadores de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Santa Catarina, de Rondônia e outros que não tinham grandes composições políticas, tempo de televisão e nem recursos milionários para disputar um pleito, mas saíram vencedores no mundo digital”, lembra.

Santiago ressalta que os elementos tradicionais não desapareceram. Porém, a comunicação direta com o eleitor por meio digital se torna uma ferramenta relevante no processo da campanha eleitoral.

“Uma eleição de conversa rápida pelas vias de interação moderna, de linguagem fácil e de uma conversa rosto a rosto, do diálogo próximo da sociedade e com credibilidade são fórmulas interessantes para quem quer vencer o pleito”, avalia o cientista.

Presença digital exige estratégia profissional

O cientista político André César afirma que o uso das redes sociais já se consolidou no processo eleitoral. Ele também considera a eleição de 2018 como um marco em relação à nova forma de comunicar com o eleitor.

“A rede social é um elemento que não é tão novo e já está há pelo menos 10 anos no processo eleitoral. Temos o exemplo do Bolsonaro, quem tem boa presença nas redes sociais sai à frente. As redes nesse sentido, se colocam à frente da televisão”, disse. “É algo a se olhar com mais atenção cada vez mais e essa eleição talvez seja uma espécie de divisor de águas, antes e depois do que se discute sobre campanha e redes sociais”, completou César.

Propaganda eleitoral ainda influencia indecisos

Apesar do avanço no campo digital, o cientista político Helso Ribeiro considera que o tempo de propaganda eleitoral na TV e no rádio ainda exerce influência e pode impactar o eleitorado, principlamente as pessoas indecisas.

“Com certeza, pode ter influência após o começo da propaganda eleitoral. Estudos mostram que o horário eleitoral é visto por muitas pessoas e dependendo de como esse material for construído, e aí é uma questão de marketing, ele pode influenciar sim as pessoas indecisas e gerar mudanças, desempates”, cita Ribeiro.

Critérios legais definem tempo de propaganda

Segundo o advogado e especialista em direito eleitoral, Marcos Rodrigo, a divisão do tempo de propaganda segue regras estabelecidas pela legislação eleitoral brasileira, o que garante proporcionalidade e equidade na divisão desse tempo entre os candidatos.

“O tempo total do horário eleitoral é dividido da seguinte forma: 10% divididos igualitariamente entre todos os candidatos cujos partidos têm representação na Câmara dos Deputados. 90% divididos proporcionalmente ao número de deputados federais que os partidos da coligação do candidato elegeram na última eleição geral, em 2022”, informou.

Mudança na projeção eleitoral

Um levantamento recente divulgado pela empresa Direto ao Ponto Pesquisas indicou vantagem do senador Omar Aziz na disputa pelo Governo do Amazonas nas eleições deste ano. No entanto, os dados consideravam a pré-candidatura de Tadeu de Souza, que deixou a corrida eleitoral. Com isso, o cenário de tempo de propaganda em rádio e TV, dos candidatos, deve sofrer alterações.

Na projeção inicial, Omar Aziz teria 4 minutos e 42 segundos por bloco de 10 minutos, o equivalente a 47,02% do tempo total. Tadeu de Souza apareceria com 2 minutos e 34 segundos (25,63%), seguido pela professora Maria do Carmo Seffair, com 2 minutos e 10 segundos (21,58%). O ex-prefeito de Manaus, David Almeida, teria 35 segundos (5,78%). O governador Roberto Cidade (União Brasil) entra na lista do tempo de propaganda eleitoral.

De acordo com o advogado Marcos Rodrigo, a saída de Tadeu de Souza e o ingresso de Roberto Cidade na disputa nas eleições não significa que o tempo de Souza será transferido para o outro candidato. Mas, a definição acontece a partir dos partidos.

“O tempo (da propaganda eleitoral) não é “herdado” automaticamente. O tempo de TV e rádio não pertence ao candidato (Tadeu ou Roberto), mas sim aos partidos políticos e às coligações que eles
formam. O tempo que seria de Tadeu só será de Cidade se o partido de Tadeu
(Progressistas – PP) decidir se coligar oficialmente com o partido de Cidade (União
Brasil – União)”, informou. “Portanto, a tendência política mais provável é que o PP de Tadeu de Souza formalize apoio a Roberto Cidade, consolidando um grande bloco partidário e, consequentemente,
somando os tempos de TV”, complementou.

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