O término de um relacionamento raramente representa apenas o fim de uma história de amor. Dependendo das circunstâncias, pode envolver perda de rotina, mudanças na convivência com os filhos, alterações financeiras, afastamento social e a necessidade de reconstruir projetos de vida. Embora essa experiência seja dolorosa para homens e mulheres, pesquisas recentes chamam atenção para um ponto menos discutido: o sofrimento emocional masculino após separações.

Isso não significa negar a dor feminina diante de uma ruptura amorosa. Essa dor é real, frequente e amplamente reconhecida. O alerta é outro: muitos homens também sofrem intensamente, mas tendem a expressar esse sofrimento de forma mais silenciosa.

Um estudo conduzido por Keown, Weier e Currier (2025), com dados do Ten to Men, maior estudo longitudinal sobre saúde masculina da Austrália, observou que homens que passaram por separação recente apresentaram níveis mais elevados de sofrimento psicológico, pensamentos suicidas e tentativas de suicídio em comparação àqueles que não haviam vivenciado ruptura conjugal. Na mesma direção, Wilson et al. (2025), em revisão sistemática e meta-análise internacional, identificaram maior risco de ideação suicida, tentativas e morte por suicídio entre homens separados ou divorciados quando comparados aos casados.

Uma das explicações possíveis está na forma como muitos homens constroem suas redes de apoio. Enquanto mulheres costumam manter vínculos emocionais mais diversificados, alguns homens concentram grande parte da intimidade afetiva na relação amorosa. Quando ela termina, podem perder também sua principal fonte de escuta, acolhimento e pertencimento.

Fatores culturais também pesam. Muitos homens aprendem, desde cedo, que demonstrar vulnerabilidade é sinal de fraqueza e que dificuldades emocionais devem ser enfrentadas individualmente. Por isso, a dor nem sempre aparece como choro ou pedido direto de ajuda. Pode surgir como isolamento, irritabilidade, aumento do consumo de álcool, excesso de trabalho, impulsividade, alterações do sono ou perda de interesse por atividades antes prazerosas.

É importante lembrar que a maioria das pessoas consegue atravessar uma separação e reconstruir a vida ao longo do tempo. O término não deve ser visto como causa de adoecimento mental. Ainda assim, as evidências indicam que esse período pode exigir atenção especial, sobretudo quando há solidão, ausência de rede de apoio ou histórico prévio de sofrimento psicológico.

Talvez uma das principais contribuições desses estudos seja ampliar nossa compreensão sobre a saúde mental masculina. Reconhecer que homens também podem sofrer intensamente após uma ruptura não diminui a dor das mulheres nem transforma os homens em vítimas. Apenas nos lembra que o sofrimento humano nem sempre é visível.

Em uma sociedade que ainda associa masculinidade à resistência emocional, falar sobre tristeza, solidão e vulnerabilidade pode ser um ato de coragem. E pedir ajuda, muitas vezes, não é sinal de fraqueza, mas o primeiro passo para reconstruir a própria vida depois que uma história chega ao fim.

Ana Claudia Pinto Oliveira é neuropsicóloga, diretora clínica do Instituto Desenvolver, com mestrado em Educação pela Universidade dos Pueblos de Europa; e pesquisadora do Laboratório de Avaliação Psicológica da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

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