A adolescência sempre foi um período de perguntas, inseguranças, busca por pertencimento e necessidade de privacidade. A diferença é que, hoje, muitas dessas dúvidas podem ser levadas primeiro a uma tela — e, cada vez mais, a uma inteligência artificial.

Para alguns adolescentes, a IA funciona como uma espécie de confidente disponível a qualquer hora. Ela responde sem demonstrar impaciência, não faz perguntas constrangedoras e pode parecer um lugar seguro para falar sobre tristeza, ansiedade, conflitos familiares ou dificuldades nos relacionamentos. Em setembro, mês marcado pelas discussões sobre saúde mental, esse fenômeno merece atenção não pelo medo da tecnologia, mas pela necessidade de proteção.

Um estudo publicado em 2026 no JAMA Pediatrics, com quase 40 mil estudantes, encontrou que 21,1% já haviam utilizado inteligência artificial generativa para apoio ou aconselhamento emocional. Outro levantamento, também de 2026, mostrou que quase um em cada cinco adolescentes e jovens pesquisados já havia recorrido a chatbots para buscar orientação em saúde mental, e muitos não contaram isso a outras pessoas (BONNESEN et al., 2026; McBAIN et al., 2026).

Esses dados não significam que usar inteligência artificial seja, por si só, prejudicial. A preocupação começa quando ela se torna o principal ou único espaço para falar sobre sofrimento emocional. Um chatbot pode oferecer informação e organizar pensamentos, mas não conhece toda a história daquele adolescente, pode interpretar situações de forma inadequada e não substitui avaliação clínica.

Para os pais, o desafio é acompanhar sem invadir. Fiscalizar escondido, retirar o celular de forma abrupta ou desqualificar o uso da IA pode aumentar a distância. Uma abordagem mais eficaz é conversar com curiosidade: “Você costuma usar IA quando está preocupado?” ou “Quando algo pesa mais, com quem você sente que consegue conversar?”. Assim, o diálogo se aproxima do cuidado, e não da vigilância.

Também é importante observar mudanças no cotidiano. Alterações persistentes no sono, isolamento, queda importante no rendimento, abandono de atividades, irritabilidade intensa ou perda de interesse por coisas que antes faziam sentido merecem atenção. Nenhum desses comportamentos, isoladamente, define um problema de saúde mental, mas mudanças significativas e duradouras justificam uma aproximação mais cuidadosa.

E há uma mensagem que precisa estar clara dentro de casa: buscar ajuda profissional não significa que algo “deu errado”. Psicólogos, psiquiatras e outros profissionais de saúde oferecem um espaço de escuta, avaliação e acompanhamento que nenhuma ferramenta digital consegue substituir.

A inteligência artificial provavelmente continuará fazendo parte da vida dos adolescentes. O objetivo, portanto, não é proibi-la, mas ensiná-los a reconhecer seus limites. Em saúde mental, tecnologia pode apoiar; não deve carregar sozinha o peso do cuidado.

Talvez essa seja uma das formas mais importantes de proteção neste Setembro Amarelo: construir relações em que o adolescente saiba que pode perguntar, falar, duvidar e pedir ajuda sem medo de julgamento. Porque, mesmo em uma geração cercada por respostas instantâneas, ainda há perguntas que precisam encontrar uma pessoa disposta a escutar.

Ana Claudia Pinto Oliveira é neuropsicóloga, diretora clínica do Instituto Desenvolver, com mestrado em Educação pela Universidade dos Pueblos de Europa; e pesquisadora do Laboratório de Avaliação Psicológica da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

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