A ordem internacional do pós-Guerra Fria, marcada pelo discurso liberal, pelo multilateralismo e pela defesa formal do direito internacional, vem sendo gradualmente substituída por uma lógica clássica de poder, influência e esferas geopolíticas.

Os acontecimentos recentes envolvendo os Estados Unidos na América Latina, a postura ambígua de Washington diante da guerra na Ucrânia e o avanço assertivo da China no Sudeste Asiático indicam que as grandes potências voltam a operar segundo uma racionalidade imperial, ainda que sem tratados formais. O mundo parece caminhar para uma reorganização tácita em que cada potência busca dominar seu “próprio” espaço estratégico.

No caso dos Estados Unidos, observa-se um claro reacendimento da Doutrina Monroe, sintetizada na ideia de “América para os Americanos”. Ao longo de 2025 e começo de 2026, documentos oficiais, declarações da Casa Branca e ações concretas demonstram que Washington voltou a tratar a América Latina como sua zona prioritária de influência estratégica, política e militar. A captura de Nicolás Maduro e o plano de “estabilização, recuperação e transição” imposto à Venezuela simbolizam essa retomada explícita de uma política intervencionista.

Essa postura também remete à Doutrina do Big Stick, segundo a qual os Estados Unidos reservam-se o direito de usar a força para garantir seus interesses hemisféricos. O discurso de segurança nacional, combinado à retórica de combate a regimes considerados hostis, serve como justificativa para intervenções diretas ou indiretas. A Venezuela, com as maiores reservas de petróleo do mundo, tornou-se peça central dessa estratégia, tanto pelo valor energético quanto por sua posição geopolítica no Caribe e na América do Sul.

Além da Venezuela, outros territórios ganham relevância estratégica para Washington. A Groenlândia, por exemplo, ocupa posição-chave no Ártico, região cada vez mais disputada devido às novas rotas marítimas, recursos naturais e à projeção militar sobre Europa e Rússia. As reiteradas ameaças de anexação ou uso da força contra a ilha evidenciam que os Estados Unidos não descartam meios coercitivos para assegurar vantagens estratégicas.

O Canadá e o Panamá também integram esse tabuleiro. O primeiro, pela profundidade territorial, integração econômica e papel no Ártico; o segundo, pelo controle do Canal do Panamá, ponto vital para o comércio global e a mobilidade naval entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Juntos, esses espaços reforçam a lógica de um cinturão geopolítico norte-americano voltado à contenção de rivais e à garantia de supremacia regional.

Enquanto consolida sua hegemonia no continente americano, os Estados Unidos demonstram uma postura surpreendentemente complacente em relação à Rússia no conflito ucraniano. Apesar da retórica de apoio a Kiev, a prática diplomática recente sugere limites claros ao envolvimento direto, evitando confrontar Moscou de forma decisiva. Esse “fazer vista grossa” cria condições para que a Rússia avance em seus objetivos estratégicos históricos.

Entre esses objetivos, destaca-se o antigo sonho geopolítico russo de acesso permanente às águas quentes, fundamental para projeção naval, comércio e influência global. A guerra na Ucrânia, nesse sentido, não é apenas territorial, mas parte de uma lógica secular de expansão e segurança estratégica russa. A ausência de uma resposta mais dura por parte dos Estados Unidos pode indicar uma aceitação tácita dessa esfera de influência europeia-oriental.

Paralelamente, a China observa atentamente esses movimentos e parece reivindicar tratamento semelhante em sua região. O Sudeste Asiático, marcado por disputas no Mar do Sul da China, e sobretudo Taiwan, ocupam lugar central na estratégia chinesa. Para Pequim, a ilha é uma questão interna e simbólica, relacionada à soberania, à integridade territorial e à consolidação do poder regional.

A percepção chinesa de que os Estados Unidos se sentem legitimados a agir unilateralmente em seu hemisfério reforça a narrativa de que a China também teria o “direito” de impor sua ordem regional. O precedente aberto pelas ações americanas na Venezuela e pela pressão sobre a Groenlândia alimenta a ideia de que o uso da força, quando praticado por grandes potências, tende a ser normalizado no sistema internacional.

Dessa forma, começa a se desenhar um acordo informal, não escrito, mas funcional, entre as grandes potências. Nele, os Estados Unidos dominariam a América, a Rússia consolidaria sua influência sobre partes da Europa Oriental e a China exerceria hegemonia no Sudeste Asiático. Trata-se de uma nova versão das antigas esferas de influência do século XIX, agora adaptadas ao século XXI.

Em conclusão, o mundo caminha para uma ordem internacional mais fragmentada, menos regulada por normas universais e mais guiada pela força e pelo cálculo estratégico. A retórica liberal persiste, mas a prática revela o retorno da política de poder em sua forma mais clássica. “América para os Americanos, Europa Oriental para os Russos, Sudeste Asiático para os Chineses” deixa de ser apenas uma provocação retórica e passa a descrever, com inquietante precisão, a lógica emergente das relações internacionais contemporâneas.

Farid Mendonça Júnior – Advogado, economista, administrador e Assessor Parlamentar no Senado Federal

Leia mais: