A Groenlândia, frequentemente percebida como um território remoto e coberto de gelo, ocupa hoje uma posição central no tabuleiro geopolítico global. Longe de ser apenas uma ilha periférica, ela reúne fatores estratégicos, militares, econômicos e ambientais que explicam o interesse crescente das grandes potências, em especial dos Estados Unidos. O debate recente sobre sua possível anexação ou controle direto recolocou a região no centro das tensões internacionais, revelando disputas que vão muito além do Ártico.

Historicamente, o interesse dos Estados Unidos pela Groenlândia não é novo. Desde o século XIX, Washington avalia a ilha como um ativo estratégico, em linha com a expansão territorial que marcou a compra do Alasca e a consolidação do poder norte-americano no Atlântico Norte. Durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, a Groenlândia foi incorporada ao sistema de defesa ocidental como um ponto avançado contra a União Soviética, função que permanece relevante até hoje.

Do ponto de vista geográfico, a Groenlândia ocupa uma posição-chave entre a América do Norte, a Europa e a Rússia. Ela se localiza sobre o chamado “GIUK Gap” (Groenlândia–Islândia–Reino Unido), corredor estratégico para o controle naval e aéreo do Atlântico Norte. Esse posicionamento permite monitorar rotas marítimas e trajetórias de mísseis intercontinentais, tornando a ilha vital para os sistemas de alerta precoce e defesa antimísseis dos Estados Unidos.

A dimensão militar desse interesse é materializada pela Base Espacial de Pituffik (antiga Base Aérea de Thule), um dos pilares do sistema de vigilância estratégica norte-americano. A partir dela, os EUA monitoram lançamentos de mísseis e atividades espaciais, especialmente em um contexto de rivalidade crescente com Rússia e China. Assim, controlar ou ampliar a influência sobre a Groenlândia significa fortalecer diretamente a segurança do território continental americano.

Entretanto, a Groenlândia não é relevante apenas por razões militares. Seu subsolo abriga uma das maiores concentrações conhecidas de minerais críticos e terras raras do mundo, essenciais para tecnologias de ponta, como semicondutores, baterias, equipamentos militares e energias renováveis. Em um cenário de disputa global por cadeias de suprimento mais seguras e menos dependentes da China, esses recursos tornam a ilha ainda mais estratégica.

O aquecimento global adiciona uma nova camada a essa equação geopolítica. O degelo acelerado do Ártico facilita o acesso a áreas antes inacessíveis, tanto para a mineração quanto para a navegação. Novas rotas marítimas encurtam distâncias entre a Ásia, a Europa e a América do Norte, aumentando o valor econômico e logístico da Groenlândia no comércio internacional e na projeção de poder naval.

Nesse contexto, a presença crescente da China no Ártico preocupa Washington. Pequim se apresenta como uma “potência quase ártica” e busca expandir sua influência econômica por meio de investimentos em infraestrutura e mineração. Para os Estados Unidos, impedir que a Groenlândia se torne uma porta de entrada chinesa no Atlântico Norte é uma prioridade estratégica, o que ajuda a explicar a retórica cada vez mais agressiva da Casa Branca.

As tensões diplomáticas resultantes desse cenário colocam a Europa em uma posição delicada. A Groenlândia é um território autônomo do Reino da Dinamarca, país-membro da OTAN. Quando autoridades norte-americanas insinuam a possibilidade de anexação, inclusive por meios não diplomáticos, cria-se um paradoxo: um membro da aliança ameaçando, direta ou indiretamente, a soberania de outro aliado.

Esse ponto é particularmente sensível porque expõe fissuras internas na OTAN. Lideranças europeias já alertaram que um eventual uso da força por parte dos Estados Unidos contra a Groenlândia colocaria a aliança em xeque. A OTAN, fundada sobre o princípio da defesa coletiva, teria sua legitimidade profundamente abalada se um de seus pilares violasse esse mesmo princípio, abrindo inclusive o debate sobre o risco de dissolução ou esvaziamento da organização.

Além disso, o caso da Groenlândia revela uma mudança mais ampla na estratégia dos Estados Unidos, que passam a priorizar o controle direto de áreas consideradas vitais para sua segurança nacional. Essa postura resgata elementos clássicos da geopolítica, nos quais a posição geográfica e o controle territorial se sobrepõem a normas multilaterais e arranjos institucionais construídos no pós-Segunda Guerra Mundial.

Em síntese, a importância da Groenlândia para a geopolítica atual resulta da convergência entre posição estratégica, recursos naturais, mudanças climáticas e disputas de poder entre grandes potências. O debate em torno de seu futuro não diz respeito apenas à ilha ou à Dinamarca, mas ao equilíbrio do sistema internacional, à coesão da OTAN e às regras que moldam a ordem global no século XXI.

Farid Mendonça Júnior – Economista, advogado, administrador e Assessor Parlamentar no Senado Federal

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