Político, gestor e professor, o atual superintendente da Zona Franca de Manaus (Suframa), Bosco Saraiva, possui uma trajetória de mais de 40 anos na vida pública do Amazonas. Sua carreira é marcada por uma atuação versátil, tendo ocupado cargos de relevância como vereador, presidente da Câmara Municipal de Manaus (CMM), deputado estadual, secretário de Segurança Pública e vice-governador do Estado.
À frente da Suframa desde 2023, Saraiva tem focado no fortalecimento do Modelo Zona Franca de Manaus e na modernização dos processos de fomento econômico na região. Sua gestão é caracterizada pela articulação política em Brasília para garantir a segurança jurídica do Polo Industrial de Manaus (PIM) e pela expansão das ações da autarquia para os demais estados da Amazônia Ocidental e o Amapá, buscando integrar o desenvolvimento regional e a preservação ambiental.
Confira a entrevista:
EM TEMPO – O senhor assumiu a Superintendência da Suframa em um momento de desafios para a Zona Franca. Quais foram as prioridades definidas no início da sua gestão?
BOSCO SARAIVA – Nós estruturamos a gestão sobre dois pilares fundamentais: transparência e controle. Essas foram as diretrizes centrais desde o primeiro dia. Controle no sentido de modernizar a gestão administrativa, aprimorar processos e dar mais eficiência à máquina pública. Tivemos a oportunidade de avançar bastante nesse aspecto quando encerramos um contrato antigo de fábrica de software e contratamos uma nova, específica para a Suframa. Isso nos permitiu melhorar significativamente os sistemas de controle, os dados da autarquia e da indústria, o acompanhamento dos subsetores, especialmente em relação à produção e à ocupação de mão de obra no Polo Industrial de Manaus. Esse processo nos ajudou a recuperar tempo perdido e a alinhar a Suframa a um modelo de gestão mais moderno e informatizado, compatível com outras repartições públicas. Como resultado, recebemos o prêmio de melhor gestão entre as repartições públicas federais do Brasil, concedido pelo Ministério da Gestão no ano passado. A Suframa recebeu a medalha de ouro em gestão, um reconhecimento que muito nos orgulha.
ET – Quais são os aspectos mais importantes desse início de gestão?
BS – Desde o primeiro dia, buscamos também a reabertura e a reaproximação institucional da Suframa com os organismos regionais, como Sudam, Basa e Banco do Brasil. Trabalhamos fortemente a integração com os estados de Rondônia, Roraima e Amapá, promovendo tanto a ida da Suframa a esses estados quanto a vinda de servidores dessas unidades para Manaus. Além disso, aprofundamos a relação com os municípios do interior do Amazonas. A Suframa passou a levar informação diretamente às cidades, explicando aos comerciantes e empresários locais quais benefícios fiscais podem ser acessados mediante cadastro na autarquia. Muitos desconheciam essas vantagens, e esse trabalho segue em andamento até hoje.

ET – Ao longo da sua gestão, quais resultados o senhor considera mais relevantes à frente da autarquia?
BS – Um dos principais resultados foi a geração de 23 mil novos postos de trabalho. Em 2023, quando assumimos, o Polo Industrial tinha cerca de 109 mil trabalhadores. Encerramos o último ano com aproximadamente 132 mil empregos diretos no chão de fábrica. Esse crescimento trouxe dois grandes desafios, que eu costumo chamar de “bons problemas”. O primeiro é a capacitação profissional, diante da grande absorção de mão de obra, especialmente jovens que estão saindo do ensino médio ou trabalhadores que precisam se requalificar. O segundo é a quantidade de fábricas. Em três anos, aprovamos 195 novos projetos industriais para instalação no Polo Industrial de Manaus. Somente em 2025, foram 79 novas fábricas aprovadas. Elas têm até três anos para se instalar, o que nos impõe o desafio de garantir áreas adequadas para recebê-las.
ET – Entre as ações realizadas, há alguma decisão ou entrega que o senhor avalia como mais representativa da sua gestão? Por quê?
BS – Sem dúvida, a modernização da gestão e a aproximação com o investidor e com as fábricas. Atualmente, o Polo Industrial de Manaus conta com cerca de 530 fábricas ativas. Durante a nossa gestão, visitamos pessoalmente 262 delas, ou seja, mais da metade. A diretoria da Suframa esteve nessas empresas, conversou com a gestão, acompanhou a produção, almoçou com os trabalhadores. Isso nos permitiu entender melhor cada subsetor, as condições de trabalho, a questão ambiental, como tratamento de água e esgoto, e o nível de modernização da gestão das empresas. A partir disso, implantamos, em parceria com o Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), o programa ESG Zona Franca, com o objetivo de alinhar o Polo Industrial às melhores práticas de governança, sustentabilidade e responsabilidade social. Nosso objetivo é que o Polo Industrial de Manaus se torne o mais sustentável do mundo.
ET – A maioria dessas empresas está concentrada em quais setores?
BS – O Polo Industrial conta com 39 subsetores. Os mais ativos são o de informática, o polo de duas rodas, onde estão praticamente todas as grandes marcas mundiais de motocicletas, o polo de ar-condicionado, o químico, o eletroeletrônico e o termoplástico. Este último cresceu bastante, com empresas especializadas na fabricação de peças plásticas e polímeros.
ET – De forma prática, que impactos as ações trouxeram para o Polo Industrial de Manaus e para a atração de novos investimentos?
BS – O principal impacto é o fortalecimento da economia regional. A Zona Franca de Manaus é o grande motor da economia da Amazônia. Quanto mais ela cresce, mais empregos, investimentos e melhorias na qualidade de vida são gerados. Basta comparar Manaus em 1965 com Manaus em 2025. Antes da Zona Franca, a cidade tinha uma realidade completamente diferente. Desde sua implantação, em 1967, a transformação social, econômica e urbana é evidente.
ET – Quais desafios estruturais da Zona Franca ainda permanecem e exigem atenção nos próximos anos?
BS – Um dos principais é a revisão urgente do Plano Diretor de Manaus, para permitir a criação de novas áreas industriais. Precisamos descentralizar parte da atividade industrial, aproximando as fábricas das áreas residenciais, reduzindo o tempo de deslocamento dos trabalhadores e melhorando a mobilidade urbana. Esse é um desafio que passa especialmente pelo poder público municipal, para criar condições legais e urbanísticas que facilitem a instalação de novas plantas industriais.
ET – Além da geração de empregos, como tudo isso impacta diretamente a vida da população?
BS – Um impacto importante vem da Lei de Informática, que obriga as empresas do Polo de Informática a investir em pesquisa, desenvolvimento e inovação. Trata-se de um investimento bilionário. Estamos nos aproximando da maturidade desse processo. Em cerca de seis a oito anos, teremos uma base sólida de formação científica e tecnológica. Hoje já existem mais de 80 institutos de pesquisa em funcionamento, formando jovens, desenvolvendo conhecimento e inovação. Isso permitirá ao Amazonas se tornar um grande produtor de cientistas e de bioprodutos, com potencial de escala industrial e exportação para o mundo inteiro.
ET – De que forma o Acordo Comercial entre o Mercosul e a União Europeia, recentemente aprovado para assinatura após mais de 25 anos de negociações, pode impactar a competitividade e o modelo tributário da Zona Franca de Manaus?
BS – A reforma tributária garantiu segurança ao nosso modelo, graças ao excelente trabalho da bancada do Amazonas, liderada pelo senador Omar Aziz, e ao relatório do senador Eduardo Braga. Isso trouxe tranquilidade e atraiu novos investimentos. O acordo com a União Europeia nos favorece, especialmente no acesso a tecnologias da indústria 4.0. Nossos produtos, como motocicletas, televisores, celulares e condicionadores de ar, têm alta qualidade tecnológica e competitividade internacional. Além disso, a diferença cambial também favorece nossas exportações. A reforma tributária nos protegeu. A vitória da nossa bancada em Brasília, sob a coordenação do senador Omar Aziz, foi fundamental. O relatório do senador Eduardo Braga foi excelente para nós e nos garantiu tranquilidade para os próximos anos. Foi exatamente essa segurança jurídica que atraiu essa grande quantidade de empresas para a região. O acordo entre o Mercosul e a União Europeia também nos favorece, especialmente por facilitar o acesso a maquinário da indústria 4.0, que já está disponível naquele mercado. Aqui, nós temos uma produção com altíssima qualidade tecnológica: fabricamos condicionadores de ar, televisores, celulares e, principalmente, motocicletas, um dos nossos principais produtos, reconhecido mundialmente pela sua qualidade. Não temos nenhum receio de perda de competitividade. Pelo contrário, a qualidade dos nossos produtos é elevada. Além disso, produzimos em real e comercializamos em euro, o que nos garante uma vantagem cambial importante. Já exportamos uma grande quantidade de produtos para a União Europeia, especialmente no setor de duas rodas, que mantém exportações regulares para aquele mercado.
ET – O senhor já sinalizou que deve deixar o cargo nos próximos meses. O que considera essencial para garantir a continuidade administrativa da Suframa?
BS – Acredito que a cultura de gestão já está instalada. O modelo de abertura, diálogo com investidores e modernização seguirá. Não tenho dúvidas de que o caminho continuará o mesmo.
ET – Existe um planejamento de transição?
BS – A decisão de saída é pessoal e já está tomada. Vou me desincompatibilizar do cargo até o final de março para me juntar ao senador Omar Aziz em um projeto de retomada do Governo do Estado, levando a experiência adquirida nesses três anos à frente da Suframa.
ET – Há algum nome definido para assumir o cargo?
BS – Ainda não. Esperamos que seja alguém alinhado com o projeto que implantamos.
ET – O senhor afirmou que qualquer decisão eleitoral será tratada apenas após deixar a Superintendência. Essa definição depende mais de fatores pessoais ou de articulações políticas?
BS – Não. Nós temos um projeto de retomada do governo e estamos trabalhando na construção de um plano de governo. Tudo isso será discutido de forma clara e no momento adequado com o senador Omar Aziz e com os demais companheiros. Não tenho mais vaidades em relação a isso. Pretendo permanecer em Manaus, no Amazonas, com a intenção de contribuir e ajudar o governo do Estado.
ET – Após encerrar esse ciclo na Suframa, o senhor se vê permanecendo na vida pública, seja no Legislativo, como a Assembleia Legislativa do Amazonas, ou em outra função? Em que áreas acredita que pode contribuir?
BS – Sim. Pretendo disputar uma vaga na Assembleia Legislativa do Amazonas para contribuir com o governo do Estado.
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