O avanço do narcotráfico no Amazonas tem ganhado contornos cada vez mais sofisticados. Para driblar a fiscalização, traficantes investem em processos químicos capazes de alterar a cor, o estado físico e até o odor das drogas, dificultando a identificação em abordagens de rotina, scanners e testes rápidos. Casos recentes envolvendo a chamada maconha líquida e a cocaína preta revelam que o crime organizado está em constante adaptação e que o Amazonas ocupa posição estratégica nesse novo cenário.

Maconha líquida

Foto: Erlon Rodrigues/PC-AM

No último dia 14, a Polícia Civil do Amazonas, em ação conjunta com a Receita Federal, apreendeu em Manaus uma remessa de maconha líquida que seguia para Boa Vista, em Roraima. A droga estava armazenada em dispositivos semelhantes a cigarros eletrônicos, conhecidos como “jets”, avaliados entre R$ 500 e R$ 600 cada.

Segundo o delegado Rodrigo Torres, diretor do Departamento de Investigação sobre Narcóticos (Denarc), a substância apreendida apresentava concentração extremamente elevada de Tetrahidrocanabinol (THC), principal componente psicoativo da maconha.

“Essa substância possui aproximadamente 82% de THC. E o DENARC, em mais uma ação conjunta com a Receita Federal, no logrou êxito em apreender 12 cigarros desse eletrônicos contendo essa substância líquida da maconha, substância essa ilícita que estava indo com destino à Boa Vista, mas interceptada aqui em uma transportadora. No momento, o DENARC está investigando, visando descobrir o remetente, o destinatário e os eventuais compradores e distribuidores também nas regiões aqui do norte do Brasil”, afirmou o delegado.

De acordo com as investigações, a carga saiu do estado de Santa Catarina e foi interceptada em uma transportadora na capital amazonense. Cada dispositivo permitiria cerca de 600 tragos, segundo informações da própria embalagem.

Cocaína preta

Foto: Erlon Rodrigues/PC-AM

Outro exemplo da sofisticação criminosa foi revelado em uma operação do Denarc que apreendeu cerca de 40 quilos de cocaína preta em uma mansão de luxo no bairro Ponta Negra, área nobre de Manaus. A droga estava escondida em fundos falsos de móveis e quadros, em uma casa que funcionava como base de armazenamento e distribuição.

A cocaína negra passa por um tratamento químico que altera sua cor e composição. Em laboratório, a perita criminal Midori Hiraoka explicou que os traficantes adicionam carvão ativado e outros corantes à substância.

Esses elementos formam um complexo químico que impede a reação dos testes rápidos, responsáveis por gerar a coloração azul característica da cocaína, e ainda mascara o odor, dificultando a atuação de cães farejadores.

“O valor aproximado de cada quilo desse tipo de cocaína está avaliado em torno de 100 mil dólares, um valor muito acima do normal. Essa droga seria exportada para o exterior dentro de quadros e de cadeiras que foram encontrados na residência, mas após um trabalho muito bem feito pela Polícia Civil foi possível descobrir todo o esquema de ocultação antes que o entorpecente deixasse o país”, explicou o delegado-geral da PC-AM, Bruno Fraga, em coletiva de imprensa.

Ainda segundo as autoridades, a última apreensão de cocaína negra registrada pela Polícia Civil foi em 2019, quando 25 quilos foram apreendidos em Manacapuru, interior do Amazonas.

Corrida contra o crime organizado

 Foto: PRF/Divulgação

Ao Em Tempo, o especialista em segurança pública Amadeu Soares destaca que o crime organizado se reinventa constantemente, adotando diversas estratégias para tentar ludibriar o poder público e apagar seus rastros.

“Eles estão utilizando esse tratamento químico para disfarçar o aroma, dissipar o aroma. E também para evitar a reação com o reagente que é aplicado, ou seja, que tem que ficar azul. Eles utilizam o ferro para eliminar a ação do reagente. Então é uma forma de tentar burlar o sistema de segurança no envio dessa droga, que a maioria vai para a África e Europa”, explica.

Segundo ele, enquanto organizações criminosas operam de forma contínua, investindo exclusivamente em estratégias e tecnologia, a polícia precisa reagir, atualizar protocolos e buscar novas ferramentas.

“No caso, o crime está sempre na frente, porque o crime está toda hora trabalhando, focando só em cometimento de crime, em estratégias para transporte, enfim, toda uma cadeia criminosa, eles estão sempre pensando. E a polícia, ela sempre age depois do ocorrido, ou quando ela toma conhecimento, ela tenta impedir que aconteça. Eles vão estar sempre na frente em matéria de aperfeiçoamento, tecnologia”, afirma.

Amazonas no centro das rotas do tráfico

Foto: Divulgação

As apreensões reforçam um diagnóstico já apontado por estudiosos. O relatório “A Amazônia sob ataque – mapeando o crime na maior floresta tropical do mundo”, publicado pela organização Amazon Underworld, destaca Manaus como um dos principais corredores do narcotráfico na América do Sul.

Segundo o documento, drogas produzidas na região andina chegam ao Amazonas pelo Rio Solimões e seguem pelo Rio Amazonas, abastecendo mercados nacionais e internacionais. A capital amazonense funciona como elo logístico estratégico, conectando a produção amazônica a destinos na Europa, África e Ásia por meio de seus portos.

Reforço na segurança

Foto: Divulgação

À medida que a criminalidade se reinventa, as forças de segurança precisam ampliar suas estratégias para impedir que o tráfico de drogas continue fazendo vítimas, especialmente no Amazonas. Para Amadeu Soares, é fundamental fortalecer a cooperação entre as forças de segurança, sobretudo nas fronteiras do estado com outros países.

“Investir em inteligência, ter uma perícia forte para a gente ter provas técnicas boas, robustas, cooperação internacional, porque nós temos aqui tríplice fronteira em Tabatinga, temos a fronteira com a Colômbia e Venezuela aqui na região do Rio Negro, e temos a divisa com o Roraima, então sempre tem que ter cooperação entre os estados e cooperação internacional”, enfatiza o especialista.

Para enfrentar o tráfico na região, a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas informou que o estado alcançou um novo recorde de apreensão de entorpecentes em 2025. Entre janeiro e dezembro, as forças de segurança retiraram das mãos de criminosos 46,6 toneladas de drogas, superando em 3 toneladas o total registrado em 2024, de 43,2 toneladas.

Leia mais: Operação desarticula transporte de drogas do AM para o Pará e bloqueia R$ 4,8 milhões