O Carnaval é sinônimo de alegria, celebração e encontros. Para muita gente, também é um período em que a rotina de sono muda, com noites mais curtas e dias intensos. O que vale lembrar é que essa alteração, mesmo temporária, pode influenciar a forma como o cérebro avalia riscos, controla impulsos e toma decisões. Não é uma crítica à festa, é um convite ao cuidado para aproveitar melhor, com mais segurança e bem-estar.
O sono é um regulador central da atenção, do autocontrole e da estabilidade emocional. Quando ele é reduzido por alguns dias, as funções executivas, conjunto de habilidades responsáveis por planejamento, julgamento e inibição de impulsos, tendem a ficar mais frágeis porque o córtex pré-frontal perde eficiência.
Na prática, isso aparece como escolhas mais apressadas, maior impulsividade, menor paciência e decisões guiadas pelo “agora”, inclusive em situações comuns da folia, como gastos, discussões e combinações de horário.
A ciência sustenta essa experiência cotidiana. Em estudo experimental, a privação total de sono por cerca de 49 horas esteve associada a piora na qualidade das decisões e a escolhas mais arriscadas em uma tarefa que simula situações reais sob incerteza (Killgore et al., 2006).
Pesquisas com neuroimagem também indicam que a falta de sono pode aumentar a reatividade emocional e reduzir a capacidade de regulação do córtex pré-frontal sobre circuitos ligados à emoção, favorecendo irritabilidade e respostas mais intensas ao estresse (Yoo et al., 2007). Ou seja, o cansaço não afeta apenas a decisão, ele mexe com o humor e com a tolerância a frustrações.
No Carnaval, o risco pode crescer quando a privação de sono se soma ao álcool. A fadiga compromete atenção e desempenho psicomotor e pode gerar prejuízos comparáveis aos do consumo de álcool, dependendo do tempo acordado, o que ajuda a explicar por que dirigir, atravessar vias movimentadas ou circular em locais lotados após noites viradas aumenta o perigo (Dawson e Reid, 1997).
Some-se a isso calor, desidratação e alimentação irregular e o organismo entra em um estado de desgaste que favorece tontura, dor de cabeça e mal-estar. Revisões brasileiras descrevem ainda associações entre privação de sono, lapsos de atenção, piora do tempo de reação, alterações de humor e impactos sistêmicos que podem reduzir disposição e imunidade, prejudicando o aproveitamento e a qualidade de vida nos dias seguintes (Antunes et al., 2008).
A boa notícia é que dá para curtir sem abrir mão de saúde mental e segurança. Um ponto decisivo é trocar a ideia de “estar em tudo” por escolhas realistas: selecionar prioridades já reduz a exaustão. Intercalar folia e descanso, com cochilos curtos durante o dia e uma noite mínima de sono entre um dia e outro, ajuda a recuperar vigilância e equilíbrio emocional.
Hidratação constante e refeições regulares protegem energia e clareza mental. Também vale evitar conversas difíceis, decisões importantes e gastos altos quando o cansaço está evidente, porque o julgamento fica mais vulnerável. Sinais como irritação fora do padrão, pressa, confusão, tontura e sensação de “apagão” de atenção costumam ser o corpo pedindo pausa. Planejar a volta com segurança, combinar ponto de encontro e, se houver álcool, não dirigir, mantém o cuidado sem tirar a leveza da festa.
Uma pergunta simples pode ajudar como filtro em dias intensos: eu faria essa escolha se estivesse mais descansado. Se a resposta não for clara, uma pausa pode ser o melhor caminho. Cuidar do sono não diminui o Carnaval; aumenta a chance de viver a experiência com presença, segurança e bem-estar.

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