Milhares de indígenas de diversas regiões do país marcham, nesta terça-feira (7), pela Esplanada dos Ministérios, em Brasília. O ato integra a 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL 2026), considerado o maior e mais relevante evento do movimento indígena no Brasil.
Participam da mobilização povos como tikuna, kokama, makuxí, tupinambá, pataxó, krahô, apinajé, guajajara, krikati e gavião, além de representantes de parte dos 391 povos indígenas remanescentes. O grupo deixou o palco principal do ATL, no Eixo Cultural Ibero-Americano, por volta das 9h30.
Caminhada sob sol forte até o Congresso
Sob sol intenso, os manifestantes percorreram cerca de 6 quilômetros até o Congresso Nacional. O local é o principal alvo das críticas do movimento, que acusa a maioria de deputados federais e senadores de propor e aprovar medidas contrárias aos direitos constitucionais dos povos originários.
Além disso, os indígenas denunciam que parlamentares e governos cedem à pressão de setores como o agronegócio, a mineração e grandes empreendimentos. Segundo o movimento, isso permite a exploração econômica de territórios tradicionais por não indígenas.
Protesto destaca demarcação e resistência
Durante a marcha, os indígenas exibiram faixas com mensagens como “Congresso Inimigo Dos Povos”, “Nosso Território Não Está À Venda” e “Marco Temporal Não”. Pintados e com adereços tradicionais, reforçaram a identidade cultural e a resistência.
Para cumprir acordo com órgãos de segurança do Distrito Federal, os participantes deixaram arcos, flechas e outros artefatos no acampamento. Ainda assim, ocuparam três das seis faixas do Eixo Monumental e parte do gramado central.
“Nossa marcha é pacífica, rumo a um Congresso que não é pacífico, é inimigo dos povos indígenas”, criticou um dos membros da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil.
“Viemos pintar Brasília do vermelho do urucum e da resistência do jenipapo, trazendo a força, a resistência e a ressurgência indígena”, acrescentou o mesmo representante da Apib antes do início da marcha.
Marco Temporal volta ao centro do debate
Outro foco central das críticas é o chamado Marco Temporal, tese jurídica que limita o direito às terras ocupadas por indígenas em outubro de 1988, data da promulgação da Constituição.
Em 2023, o Supremo Tribunal Federal considerou a tese inconstitucional. No entanto, em 2025, o Senado aprovou uma proposta de emenda à Constituição que retoma o critério temporal.
Como o texto foi alterado, voltou à Câmara dos Deputados, onde ainda aguarda nova análise.
Demarcação e novas terras indígenas
Os manifestantes também cobram avanços na demarcação de terras. Após quatro anos sem homologações entre 2019 e 2022, o governo federal reconheceu 20 novos territórios entre janeiro de 2023 e novembro de 2025.
De acordo com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas, essas áreas somam cerca de 2,5 milhões de hectares em 11 estados.
“Mas seguimos nessa luta, nesse pleito pela garantia territorial”, afirmou Dinamam Tuxá, coordenador executivo da Apib.
“Temos um passivo de demarcação muito alto e um cenário de muita violência e vulnerabilidade nas terras indígenas que governo algum conseguiu superar. Isso tem sido um fator motivador para os povos indígenas virem a Brasília apresentar nossas pautas”, disse Dinamam.
Segundo ele, cerca de 110 áreas ainda estão em análise para reconhecimento como terras indígenas.
Participação política e orçamento
Durante o ato, a deputada federal Joenia Wapichana, ex-presidente da Funai, destacou a importância da participação indígena na política institucional.
“Estamos aqui para dizer que os povos indígenas têm capacidade para serem o que quiserem: parlamentares, autoridades públicas, representantes políticos. E essas ferramentas estão à nossa disposição”, afirmou.
“Os povos indígenas estão atentos, sabem dos seus direitos”, acrecentou Joenia, ao defender mais recursos para órgãos como a Funai e a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), ligada ao Ministério da Saúde.
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