Manaus cresceu rápido nas últimas décadas, o resultado aparece na expansão das ocupações irregulares, no avanço sobre áreas de risco, no aumento da desigualdade social e nos impactos ambientais que transformaram a capital amazonense em uma das cidades mais favelizadas do país.
Dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que Manaus teve o maior crescimento populacional entre as capitais brasileiras entre 2010 e 2022. A população saltou de 1.802.014 para mais de 2.303.732 milhões de habitantes, um aumento de 14,5% em pouco mais de uma década.
Ao mesmo tempo, levantamentos do MapBiomas apontam que a área ocupada por favelas e comunidades urbanas cresceu 2,6 vezes entre 1985 e 2024. Hoje, cerca de 55,8% da população manauara vive em áreas classificadas como favelas ou comunidades urbanas.
Para o especialista em geografia urbana Marcos Castro, esse cenário é resultado de um processo histórico de concentração econômica.
“Manaus passou por dois grandes momentos que definiram sua condição como maior centro urbano da Amazônia e sua geografia desigual. O primeiro foi o ciclo da borracha e o segundo foi a criação da Zona Franca, que ampliou ainda mais a distância entre a capital e as demais cidades do Estado”, explicou.
Segundo ele, a concentração de oportunidades na capital impulsionou fortes processos migratórios, tanto do interior do Amazonas quanto de outros Estados.
“Isso resultou em um processo de saturação, onde o desequilíbrio entre oferta de terras e moradias estava muito aquém da demanda de famílias que vinham na ilusão da busca neste ‘Eldorado’ de oportunidades, que não oferecia as condições de fixação”, afirmou.
O geógrafo destaca que a desigualdade social foi determinante para o crescimento das ocupações irregulares.
“Essa riqueza é concentrada, sendo o resultado, de um lado, as mansões e condomínios milionários, e de outro, os barracos ou moradias precarizadas”, disse.
Habitação

O Amazonas ocupa o 3º lugar entre os Estados com maior déficit habitacional do país, segundo o IBGE. O Estado possui mais de 177 mil domicílios em situação de déficit, o equivalente a 14,5% das moradias.
O custo da moradia também pesa; dados do Índice FipeZap mostram que Manaus está entre as capitais com aluguel mais caro do país. Em dezembro de 2024, o preço médio do aluguel residencial chegou a R$ 48,22 por metro quadrado, praticamente no mesmo nível do Rio de Janeiro.
A arquiteta e urbanista Cláudia Moraes avalia que a cidade não conseguiu acompanhar o próprio crescimento demográfico. “Manaus passou por uma transformação desordenada ao longo dos séculos. A falta de planejamento urbano e de organização fundiária já causa há muito tempo um desequilíbrio urbanístico”, afirmou.
Ela explicou que a velocidade da expansão urbana dificultou a criação de alternativas habitacionais adequadas.
“A necessidade extrema devido às expansões e o tempo necessário para planejamento não possibilitaram alternativas temporárias para situações de imigração, seja no século passado com a vinda de nordestinos, seja atualmente com habitantes de países estrangeiros”, disse.
Ocupações avançam sobre áreas vulneráveis

O crescimento populacional empurra milhares de famílias para áreas ambientalmente sensíveis, como margens de igarapés, encostas e áreas de preservação permanente.
Um levantamento do Serviço Geológico do Brasil (SGB) aponta que mais de 112 mil pessoas vivem em 438 setores classificados como de risco alto e muito alto em Manaus, sujeitos a inundações, erosões, deslizamentos e enxurradas.
As zonas Norte e Leste concentram a maior parte dessas áreas, entre os bairros com mais domicílios em situação de risco estão Jorge Teixeira, Cidade Nova, Gilberto Mestrinho, Alvorada, Mauazinho e Nova Cidade.
Morador do conjunto Jardim do Éden, no bairro Alvorada, Zona Centro-Oeste, o cinegrafista Duilio Candido Venâncio convive diariamente com os impactos das chuvas e o medo de viver em uma área de risco.
Segundo ele, durante o inverno amazônico, até tarefas simples da rotina se tornam difíceis. “Sair pra trabalhar é uma dificuldade diária quando está chovendo”, contou.
Duilio relembra que já teve a casa invadida pela água e perdeu praticamente tudo que tinha dentro do imóvel. Ele compartilhou também que deseja deixar o local caso consiga uma oportunidade de moradia em uma área mais segura.
Enquanto isso não acontece, o medo acompanha cada nova chuva forte. “É medo e ansiedade. Quando começa a chover eu não durmo”, desabafou.
Segundo Marcos Castro, o crescimento acelerado e sem planejamento agravou os problemas urbanos e ambientais da capital, ele também cita problemas como drenagem insuficiente, desmatamento e ocupação irregular de igarapés.
Já Claudia destacou que muitas dessas áreas são ocupadas sem que a população compreenda os riscos ambientais. “Áreas de APP, áreas próximas a igarapés e barrancos são pouco conhecidas quanto à necessidade de preservação e sua relevância para a sociedade”, disse.
A expansão urbana também tem provocado impactos climáticos em Manaus, a capital está entre as menos arborizadas do país e perdeu 29 km² de floresta nativa em dez anos, segundo levantamento do Imazon.
Soluções passam por habitação e planejamento

Os especialistas defendem que o avanço das ocupações irregulares não pode ser tratado apenas como problema de fiscalização, mas principalmente como questão social e urbana.
Entre as soluções apontadas estão a ampliação de programas habitacionais; a regularização fundiária; investimento em saneamento básico; melhoria da drenagem urbana; geração de emprego e renda e investimentos no interior do Amazonas para reduzir a pressão migratória sobre Manaus.
Cláudia também apontou a reutilização de prédios abandonados como alternativa para reduzir a expansão irregular. “Uma das soluções mais viáveis de imediato é o uso e requalificação de edificações abandonadas como alternativa de uso dos espaços urbanos já edificados”, afirmou.
Programas habitacionais

A Prefeitura de Manaus informou, em nota, que estruturou a partir de 2023 uma política habitacional integrada por meio da Secretaria Municipal de Habitação e Assuntos Fundiários (Semhaf), criada para ampliar o atendimento à população em situação de vulnerabilidade diante do déficit habitacional.
Conforme o município, atualmente existem 243 aglomerados subnormais, classificados pelo IBGE como favelas e comunidades urbanas, incluindo áreas de ocupação irregular e assentamentos informais.
Segundo a prefeitura, o programa “Minha Casa, Minha Vida” foi retomado e ampliado em Manaus, com investimentos de aproximadamente R$ 900 milhões, sendo R$ 800 milhões em recursos federais e R$ 100 milhões de contrapartida municipal. Atualmente, mais de 1.700 apartamentos estão em construção, com previsão de entrega no primeiro semestre de 2026.
Entre os empreendimentos em andamento estão os residenciais Carlos Braga, no Parque das Tribos; Deputado Mário Haddad, na zona Oeste; e Parque Riachuelo, na zona Centro-Oeste, cada um com 576 unidades habitacionais.
A administração municipal informou ainda que o programa “Manaus Legal” regularizou mais de 12 mil imóveis desde 2023, enquanto o “Casa Manauara” beneficiou mais de 500 famílias com reformas em residências precárias. Já o programa “Manaus, Minha Terra” prevê a oferta de lotes urbanizados a preço social no bairro planejado Dorothéa Braga, que deve contar com cerca de 3 mil lotes.
A prefeitura destacou que ocupações irregulares em margens de igarapés e encostas dificultam a execução dos serviços e agravam problemas como assoreamento e riscos de deslizamentos. As famílias atendidas passam por avaliação da área habitacional para inclusão em programas de moradia ou regularização fundiária, conforme a viabilidade técnica e social de cada localidade.

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