A formação do cenário político para as eleições de 2026 no Amazonas tem sido marcada por um movimento cada vez mais frequente: parlamentares que anunciam apoio a pré-candidatos de siglas rivais. A prática desafia acordos internos das legendas e pode expor a fragilidade das alianças partidárias.
Para cientistas políticos, o fenômeno reflete uma característica histórica da cultura política brasileira, na qual interesses individuais e estratégias eleitorais frequentemente se sobrepõem aos compromissos partidários e às afinidades ideológicas.
Apoios contrariam estratégias partidárias
Recentemente, o deputado estadual Cabo Maciel (PL) anunciou apoio ao ex-governador do Amazonas e pré-candidato ao Senado, Wilson Lima (União Brasil), mesmo com o Partido Liberal já tendo lançado o deputado federal Capitão Alberto Neto como pré-candidato ao cargo.
“Meu senador é o Wilson Lima e o outro, estou em tratativas, vou apresentar um segundo nome. Vou apoiar o meu irmão, o meu amigo presidente do partido, Alfredo Nascimento, e vou apoiar também o meu amigo parceiro Saullo Vianna”, disse o deputado em entrevista a um veículo de comunicação.
A declaração evidencia um posicionamento diferente da estratégia eleitoral adotada pelo PL e reforça a proximidade política de Cabo Maciel com o grupo liderado por Wilson Lima.
Além disso, divergências em relação às estratégias partidárias também aparecem nas declarações do deputado federal Silas Câmara (Republicanos), que declarou apoio ao senador Omar Aziz (PSD) na disputa pelo Governo do Amazonas.
“Nós vamos apoiar o senador Omar Aziz porque entendemos que ele faz parte, nessa eleição, de um time de pessoas que têm realmente capacidade de juntos gerir o governo do Amazonas dando robustez à economia, mas acima de tudo distribuindo orçamento, riqueza em todos os 61 municípios do estado do Amazonas. Em um possível segundo turno nós vamos continuar com o Omar”, afirmou o parlamentar.
Mudanças de posicionamento político
No MDB, outro movimento que chamou atenção partiu do ex-prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, que declarou apoio à pré-candidatura de Omar Aziz ao Governo do Amazonas.
O posicionamento representa uma mudança em relação ao cenário eleitoral anterior. Durante a eleição presidencial de 2022, Arthur buscou aproximação com o eleitorado conservador, manifestou apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro e fez críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Agora, integra uma legenda que compõe a base de apoio do governo federal e declara apoio ao senador do PSD.
“O Omar está maduro, é experiente. Essa passagem dele pelo Senado foi ótima para ele e, ao mesmo tempo, temos uma relação pessoal muito forte. Mas não é só isso. O que me faz votar nele é que ele é o mais experimentado dentre os que estão aí. Ele pode tranquilamente fazer um governo bom, ouvindo todo mundo. Ele está no seu melhor ponto da sua carreira política”, declarou Arthur.
Cientista político vê prevalência de interesses eleitorais
Na avaliação do cientista político Carlos Santiago, a infidelidade partidária reflete a forma como os partidos se organizam no Brasil. Segundo ele, interesses individuais costumam prevalecer sobre projetos coletivos.
“A fidelidade pouco importa. Há tão somente a busca de interesses pessoais, de viabilidade eleitoral, independentemente do acordo firmado, se é ideológico ou não. O mais importante é ganhar eleição, por isso que os partidos políticos no nosso país são tão frágeis”, afirmou.
Santiago destaca ainda que a infidelidade partidária raramente produz consequências jurídicas para os parlamentares.
“Não inviabiliza juridicamente quem age de forma infiel, até porque isso é quase que uma regra da cultura política do país. Os partidos políticos são apenas grupos de pessoas com benefícios particulares, não coletivos”, comentou.
Sistema partidário favorece apoios cruzados, diz especialista
O cientista político Helso Ribeiro atribui os apoios cruzados à própria estrutura do sistema partidário brasileiro, caracterizada pelo elevado número de legendas e pela fragilidade dos vínculos entre filiados e partidos.
“O Brasil tem uma farra de partidos políticos. São cerca de 31, ainda tem muitos na fila aguardando legalização. E a gente vê, na grande maioria das vezes, que os partidos servem apenas de pousada transitória para aqueles que querem chegar aos cargos políticos”, afirmou.
Segundo ele, a fidelidade partidária, considerada um dos pilares da organização política em democracias ao redor do mundo, acaba relativizada no Brasil.
“Mesmo quando eles chegam aos cargos, seja como deputados, vereadores ou senadores, um dos pilares de um partido político, no Brasil e no mundo, é a fidelidade partidária. Quando um partido resolve marchar em uma direção, todos os seus filiados têm que marchar. Caso contrário, há infidelidade partidária, o que pode gerar inclusive a expulsão dos quadros da legenda. Só que o Brasil não está muito ligado para isso”, observou.
Para Ribeiro, os apoios cruzados tornaram-se uma prática recorrente e contribuem para o enfraquecimento das legendas perante a sociedade.
“A gente vê pessoas de determinado partido apoiando o candidato opositor ao candidato do seu próprio partido. Isso é uma atitude contumaz no Brasil. Eu penso que isso enfraquece os partidos políticos e faz com que a população tenha a impressão de que partidos não servem para nada. Os exemplos que vemos hoje ressaltam muitos dos exemplos que ainda veremos até as eleições”, concluiu.
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