Janeiro é tradicionalmente associado a recomeços, planejamento e revisão de metas. É nesse contexto que surge o Janeiro Branco, campanha criada em 2014 para chamar a atenção para a saúde mental como parte indissociável da saúde integral, lembrando que cuidar da mente deve ter a mesma prioridade que cuidar do corpo.

A iniciativa funciona como um alerta coletivo para a importância de olhar com mais cuidado para emoções, relações, limites e sofrimento psíquico. A cor branca simboliza uma folha em aberto, um convite à reflexão sobre a vida que se constrói no cotidiano e sobre a sustentação emocional das escolhas feitas ao longo do tempo.

Do ponto de vista científico, a saúde mental não se limita à ausência de transtornos. A Organização Mundial da Saúde a define como um estado de bem-estar que permite lidar com os estressores da vida, trabalhar de forma produtiva e participar da comunidade. Esse conceito amplia o olhar e ajuda a compreender que cansaço persistente, ansiedade, irritabilidade, dificuldade de concentração e sensação de sobrecarga também merecem atenção, mesmo sem diagnóstico formal. Dados recentes indicam que o sofrimento psíquico vem se intensificando no Brasil, com aumento dos quadros de ansiedade e depressão e dos afastamentos do trabalho por motivos relacionados à saúde mental, evidenciando impactos que ultrapassam o âmbito individual e alcançam a vida familiar, profissional e social.

No Amazonas, o cenário também exige atenção. Informações recentes dos órgãos de vigilância em saúde indicam que ainda existem muitos casos de suicídio no estado, ao mesmo tempo em que cresce o número de notificações de lesões autoprovocadas, especialmente entre adolescentes e jovens. Esses registros reforçam a necessidade de fortalecer ações de prevenção, ampliar o acesso ao cuidado em saúde mental e investir em estratégias de apoio contínuo, sobretudo em um território marcado por desigualdades sociais e desafios de acesso aos serviços.

O sofrimento psíquico nem sempre é evidente. Muitas vezes se manifesta de forma silenciosa, por meio de insônia, exaustão emocional, desânimo, irritabilidade ou perda de sentido. Tratar esses sinais como parte inevitável da rotina pode atrasar a busca por ajuda e agravar quadros que poderiam ser melhor manejados precocemente. Há caminhos possíveis para o cuidado em saúde mental, como as Unidades Básicas de Saúde, que funcionam como porta de entrada, e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), referências no acompanhamento especializado. Em situações de necessidade de escuta imediata, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito, 24 horas por dia, pelo telefone 188.

Para além dos serviços, a ciência tem mostrado que estratégias de enfrentamento baseadas no funcionamento do cérebro são fundamentais para a proteção da saúde mental. Pesquisas em neurociência e neuropsicologia indicam que regular o sono, reduzir a exposição prolongada ao estresse, manter vínculos sociais estáveis e aprender a reconhecer e manejar emoções ajudam o sistema nervoso a sair de estados persistentes de alerta. Quando o cérebro permanece por muito tempo em modo de ameaça, aumentam os riscos de ansiedade, exaustão emocional e adoecimento psíquico.

Intervenções psicológicas fundamentadas em evidências auxiliam no desenvolvimento da regulação emocional, da flexibilidade cognitiva e de estratégias mais adaptativas para lidar com as adversidades. Cuidar da saúde mental, portanto, não é apenas reagir ao sofrimento, mas atuar preventivamente, fortalecendo recursos internos e externos para enfrentar os desafios da vida cotidiana com mais equilíbrio.

O Janeiro Branco reforça que a saúde mental não é um tema secundário nem individual. Trata-se de uma responsabilidade coletiva que envolve famílias, instituições e políticas públicas. O cuidado não termina em janeiro. Ele precisa atravessar o ano inteiro.

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