Após mais de 25 anos de negociações, o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia foi aprovado para assinatura e se consolida como um dos movimentos mais relevantes do comércio internacional recente.
No Amazonas, especialmente na Zona Franca de Manaus (ZFM), o debate envolve os possíveis impactos do acordo, a competitividade do Polo Industrial de Manaus (PIM) e a capacidade de inserção dos produtos locais no mercado europeu.
De acordo com a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), o acordo foi construído de forma criteriosa, ao considerar fatores sensíveis da economia brasileira.
Incentivos fiscais e competitividade
Entre os principais pontos está a manutenção dos incentivos fiscais da Zona Franca de Manaus, tanto os atuais quanto os previstos na reforma tributária.
Esses mecanismos garantem competitividade aos produtos fabricados em Manaus, sobretudo no mercado interno, ao equilibrar preço e qualidade.
Além disso, a Suframa avalia que o acordo pode ampliar o valor agregado das exportações do Amazonas para a União Europeia, fortalecendo a indústria local.
Segurança jurídica e acesso a tecnologia
Para o superintendente da Suframa, Bosco Saraiva, o acordo não ameaça o modelo da ZFM.
“A reforma tributária garantiu segurança ao nosso modelo, graças ao excelente trabalho da bancada do Amazonas, liderada pelo senador Omar Aziz, e ao relatório do senador Eduardo Braga. Isso trouxe tranquilidade e atraiu novos investimentos”, afirma.
Conforme Saraiva, o acordo tende a beneficiar a Zona Franca, principalmente pelo acesso a novas tecnologias.
“Nossos produtos, como motocicletas, televisores, celulares e condicionadores de ar, têm alta qualidade tecnológica e competitividade internacional, não temos nenhum receio da perda. Pelo contrário, a qualidade dos nossos produtos é elevada. Produzimos em real e comercializamos em euro, o que nos garante uma vantagem cambial importante”, acrescenta.
Ele também destaca que o Polo Industrial já exporta para o bloco europeu, sobretudo no setor de duas rodas.
“Já exportamos uma grande quantidade de produtos para a União Europeia, especialmente no setor de duas rodas, que mantém exportações regulares para aquele mercado”, conclui.
Avaliação econômica
A economista Denise Kassama analisa o acordo sob a ótica macroeconômica e destaca o tamanho do mercado envolvido.
“Do ponto de vista macroeconômico, ambos os lados têm de se beneficiar, porque estamos falando de um mercado que envolve 720 milhões de pessoas, cerca de um quarto da população do planeta”, afirma.
No entanto, ela ressalta que a ZFM ainda tem baixa inserção no mercado europeu, principalmente devido ao custo logístico.
“Hoje nós quase não transacionamos com a Europa, salvo as indústrias de origem europeia que estão aqui, que são uma fração bem pequena. A Zona Franca não vende majoritariamente para a Europa por conta do custo logístico, que é muito caro”, explica.
Por outro lado, Kassama vê oportunidades na importação de equipamentos e na atração de investimentos.
“Pode facilitar para as indústrias da Zona Franca adquirirem equipamentos da Europa e também abrir espaço para atrair novas empresas europeias para a região”, finaliza.
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