A simples formulação dessa pergunta já causa desconforto, mas não pode ser descartada como delírio político. Ao longo da história, grandes potências sempre cobiçaram territórios estratégicos, e a Amazônia ocupa lugar central nesse tabuleiro global. Em um mundo marcado por crises ambientais, escassez de recursos e disputas geopolíticas cada vez mais agressivas, imaginar um movimento dessa natureza é um exercício necessário de reflexão crítica.

A Amazônia é, antes de tudo, um ativo estratégico sem paralelo. Abriga a maior floresta tropical do planeta, concentra cerca de 20% da água doce superficial do mundo e exerce papel decisivo na regulação do clima global. Seus “rios voadores” influenciam regimes de chuva em toda a América do Sul, sustentando a agricultura, a produção de energia e a própria vida econômica de vários países.

Além da água, a biodiversidade amazônica é incomensurável. Milhões de espécies de plantas, animais e microrganismos ainda desconhecidos pela ciência representam um potencial incalculável para a indústria farmacêutica, alimentícia e biotecnológica. Controlar a Amazônia é, em última instância, deter uma chave mestra para o futuro da inovação científica e da segurança alimentar mundial.

Soma-se a isso a riqueza em recursos naturais e minerais. A região é abundante em ouro, nióbio, bauxita, cobre e, sobretudo, terras raras, elementos essenciais para a indústria de alta tecnologia, desde celulares e turbinas eólicas até armamentos sofisticados. Em um cenário de disputa tecnológica entre grandes potências, essas riquezas tornam a floresta ainda mais cobiçada.

Paradoxalmente, a Amazônia também é marcada pela fragilidade do Estado. A proliferação do tráfico de drogas, especialmente na região da tríplice fronteira, transformou vastas áreas em corredores do crime organizado. Facções transnacionais dominam rotas fluviais, cooptam populações locais e impõem uma lógica paralela de poder, explorando a ausência do Estado e a porosidade das fronteiras.

Esse cenário de instabilidade costuma ser usado, historicamente, como justificativa para intervenções externas sob o discurso da “segurança”, do “combate ao crime” ou da “proteção ambiental”. Nesse contexto, não é absurdo imaginar uma narrativa internacional que apresente a Amazônia como um território fora de controle, necessitado de tutela estrangeira.

Donald Trump, enquanto figura política, simboliza uma ruptura com consensos diplomáticos tradicionais. Seu histórico revela desprezo por normas do direito internacional, por acordos multilaterais e pela própria noção de soberania quando esta se opõe aos interesses estratégicos dos Estados Unidos. Para ele, relações internacionais se resumem a força, barganha e vantagem imediata.

Diante disso, é preciso reconhecer uma realidade incômoda: o Brasil e os demais países amazônicos não dispõem de estrutura militar, tecnológica ou financeira capaz de enfrentar uma potência como os Estados Unidos em um conflito direto. A assimetria é brutal, e a simples ideia de resistência armada revela mais fragilidade do que força dissuasória.

Essa cobiça, contudo, não é nova. Um relatório secreto elaborado pelo Itamaraty, após a divulgação de um plano do Hudson Institute da década de 1960, dos Estados Unidos, já alertava que a proposta de construção de grandes lagos artificiais na Amazônia ameaçava diretamente a soberania brasileira. O documento destacava que, apesar de se apresentar como entidade sem fins lucrativos, o instituto mantinha estreitas relações com interesses do governo americano.

O relatório apontava ainda os inúmeros impactos negativos do projeto: o alagamento de vastas áreas, a inviabilidade para a navegação e a agricultura, além do desaparecimento de cidades inteiras na Amazônia. Ou seja, a ideia de reconfigurar o território amazônico a partir de interesses externos não apenas existiu, como foi cuidadosamente desenhada no papel.

A Amazônia, portanto, sempre esteve no horizonte das ambições globais, ora sob o pretexto do desenvolvimento, ora da preservação, ora da segurança. A pergunta que se impõe, ao final, é inquietante e provocadora: E se a Amazônia for para Trump uma “Groelândia” do sul?

Farid Mendonça Júnior – Economista, advogado, administrador e Assessor Parlamentar no Senado Federal

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