“Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se… começou a ensiná-los: em marcha os pobres de espírito” (Mt 5,1-12).

Chamados às bem-aventuranças, à realização, vocacionados a uma vida em plenitude. Bem-aventurados! bem-aventuradas: a viver o Reino de Deus, ser com Jesus, pobres em espírito, consolados, mansos herdando a terra da mansidão e da bondade, com fome e sede de justiça, misericordiosos, puros de coração, provedores da paz, filhos, filhas, de Deus; herdeiros do Reino de dos Céus, tomados pela grandeza de ser seguidores e seguidoras de Jesus.

Chamados “bem-aventurados”, chamadas “bem-aventuradas”, a sermos “Felizes”. Jesus, rodeado por uma grande multidão, se dirige aos seus discípulos: “Os discípulos aproximaram-se, e Jesus começou a ensiná-los”. Ensina que as Bem-Aventuranças definem nosso modo de viver, de sermos seus discípulos. É o caminho de ser bem-aventurado, bem-aventurada. Para quem não se sente chamado são incompreensíveis as palavras do Evangelho: perseverar, caminhar, ousar fidelidade, não olhar para trás quando na aflição, na pobreza, na fome, na perseguição, no desconsolo, na injustiça. A Bem-Aventurança pede perseverar, caminhantes semeando a paz, espargindo misericórdia, habitando a mansidão, movendo os pés e o coração quando os olhos já não enxergam mais a Deus, ofuscados pela violência, ambição, paixão. 

Jesus diz: “felizes os pobres em espírito”! Ser pobre em espírito, manso de coração, os no choro consolo. Viver da lógica do Reino Deus, pois oferece misericórdia, sinceridade de coração, luta pela paz, perseverança diante das perseguições, pureza que deixa ver Deus. Habitar a nova terra, viver do novo céu e da nova terra, em meio aos tormentos e dificuldades deste mundo.

“Bem-aventurados vós, pobres”. Papa Francisco nos ensinava que Jesus diz duas coisas sobre os seus: que são bem-aventurados e que são pobres; aliás, que são bem-aventurados porque são pobres. Em que sentido? No sentido em que o discípulo, a discípula de Jesus não encontram a sua alegria no dinheiro, no poder nem sequer noutros bens materiais, mas nos dons que recebem todos os dias de Deus: vida, criação, irmãos e irmãs, a natureza, o sol e a chuva. Mas também que recebe dos irmãos e das irmãs: bondade, solidariedade. São as dádivas que fortalecem os passos, fazem perseverar no caminho. Mas também, os bens que possui. A felicidade de partilhar, porque vive na lógica da bondade e do amor de Deus. E qual é a lógica de Deus? A gratuidade. Os discípulos aprendem a viver na gratuidade. Esta pobreza é também uma atitude em relação ao sentido da vida, porque o discípulo de Jesus não pensa que a possui, que já sabe tudo, mas sabe que deve aprender todos os dias, que é a vida que o possui e alimenta. E esta é a pobreza: a consciência de ter de aprender todos os dias. O discípulo de Jesus, dado que assume esta atitude, é uma pessoa humilde, aberta, livre dos preconceitos e da rigidez. (cf. Angelus, 13/02/2022)

Bem-aventurados: perseverantes e caminhantes, pelo deserto da injustiça, da perseguição; perseverantes e caminhantes na santificação e misericórdia; perseverantes e caminhantes no consolo e na mansidão; perseverantes e caminhantes na liberdade e na pureza de coração. Perseverantes e caminhantes alimentandos com a justiça, mesmo na injustiça e na perseguição. Em caminhando, jamais deixar de caminhar, pois o caminhar com Jesus transforma em bem-aventurados, bem-aventuradas, felizes! O caminho a que fomos chamados é o da perseverança, da fidelidade, da alegria de saber que Ele caminha conosco, mesmo na injustiça, na perseguição e no abandono.

Caminhar sempre, sempre em movimento, na esperança da transformação pela dinâmica do Reino de Deus. Tomar pelo mistério do amor que Jesus nos revela!

Cardeal Leonardo Steiner – Arcebispo de Manaus

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