É evidente que o avanço do crime organizado no Brasil deixou de ser um fenômeno regional para se consolidar como uma engrenagem nacional e internacional, com forte capacidade financeira, tecnológica e política.
O alerta é do cientista político e escritor Bruno Paes Manso, estudioso da violência urbana e autor de obras como A República das Milícias e A fé e o fuzil. Em entrevista ao Correio Braziliense, ele faz um diagnóstico direto, enfatizando que o crime se nacionalizou, mas o Estado brasileiro ainda responde de forma fragmentada, com estruturas isoladas nos estados e pouca integração estratégica.
Segundo Manso, facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) operam hoje em escala global. O PCC prioriza o mercado internacional de drogas, estruturando rotas para transportar cocaína da Região Andina a portos e aeroportos que abastecem outros continentes.
Já o Comando Vermelho mantém como eixo o controle territorial armado, modelo nascido no Rio de Janeiro e replicado como uma espécie de franquia criminosa em outros estados. Ambos ampliaram receitas, profissionalizaram a lavagem de dinheiro com uso de fintechs, criptomoedas e mecanismos financeiros sofisticados e passaram a exercer influência política crescente.
O problema, ressalta o pesquisador, é que a segurança pública continua excessivamente concentrada nos governos estaduais, enquanto o crime atravessa fronteiras e articula mercados internacionais. Propostas como a PEC da Segurança Pública e o PL Antifacção buscam fortalecer a coordenação da União, integrar bancos de dados e estruturar ações conjuntas de inteligência, mas enfrentam entraves políticos. Para Manso, o debate precisa ser despolitizado e tratado como política de Estado.
O alerta é especialmente relevante para o Amazonas. Com extensa faixa de fronteira com países produtores de cocaína e uma complexa malha fluvial que facilita rotas logísticas, o estado ocupa posição estratégica no tráfico internacional. A ausência de integração efetiva entre forças estaduais e federais cria brechas que são rapidamente exploradas pelas facções. Operações ostensivas e episódicas, embora produzam impacto imediato e sensação de resposta, não substituem o trabalho contínuo de inteligência financeira, cooperação internacional e investigação estruturada.
Outro ponto sensível é a infiltração do dinheiro do crime na política e na economia formal. Com receitas multiplicadas, as organizações criminosas ampliam sua capacidade de corromper agentes públicos, financiar campanhas e sabotar mecanismos de controle.
O risco não é apenas o aumento da violência, mas o enfraquecimento institucional. Experiências como as do Rio de Janeiro, sob o governo de Cláudio Castro, mostram como operações letais podem ser politicamente capitalizadas, sem necessariamente atingir o núcleo financeiro das organizações.
Para o Amazonas, o desafio exige investimento em integração permanente com a Polícia Federal, fortalecer o compartilhamento de dados, ampliar a fiscalização nas fronteiras e priorizar o rastreamento de fluxos financeiros ilícitos.
Sem ações conjuntas e estratégicas, o estado corre o risco de se tornar palco das disputas entre facções nacionais e internacionais. O combate ao crime organizado exige menos retórica e mais coordenação técnica, inteligência e compromisso institucional. O tempo político não pode se sobrepor à urgência da segurança pública. Se não fizer a lição corretamente, o Amazonas se consolidará rapidamente como um narcoestado.

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