Na Amazônia, pesquisadores descobriram um fenômeno inusitado: as tartarugas eliminam o excesso de sódio do corpo através das lágrimas e as borboletas bebem esse líquido por ser um nutriente precioso à nutrição delas. A prática inspirou o artista Ítalo Rui em seu novo espetáculo “Borboletas bebem lágrimas de tartarugas”.
A montagem reuniu artistas do Amazonas e do Ceará. Além disso, contou com a colaboração de cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e do Musa (Museu da Amazônia). A estreia será em Manaus, com temporada gratuita de 16 a 25 de abril. As apresentações ocorrerão, inclusive, em espaços culturais e científicos.
Fenômeno natural vira metáfora no palco
O hábito denominado como lacrofagia — prática em que algumas espécies se alimentam das lágrimas de outros animais — se transforma em metáfora no espetáculo. Assim, a obra aborda temas sensíveis, como cuidado pessoal, saúde mental e decisões de vida, como sair ou não da cidade natal.
De acordo com os artistas, o projeto nasce de questões vividas durante a pandemia da COVID-19. Naquele período, muitos artistas morreram, outros deixaram Manaus e, sobretudo, o cenário era de incerteza.
“Vi um vídeo em que apareciam borboletas sobrevoando as tartarugas, uma imagem linda e comecei a pesquisar mais sobre tartarugas. Foi quando descobri que elas depositam seus ovos nos mesmos bancos de areia em que nasceram. Percebi que há uma relação muito forte com o território, com o lugar de onde elas vieram”, conta o ator Ítalo Rui.
Idealizador do espetáculo, Ítalo Rui identificou paralelos entre a natureza e o contexto social vivido. “O vídeo das borboletas e tartarugas me fizeram refletir sobre uma noção muito bonita de pertencimento e que, por conta das mudanças climáticas e da ação predatória do homem, diversas praias estão desaparecendo. Logo, as tartarugas acabavam migrando para outros lugares, como se a terra estivesse expulsando-as de alguma forma”, conta. “E era assim que eu me via e via muitos amigos artistas. Nessa mesma situação. Como se Manaus estivesse expulsando a gente, por todas as questões que envolvem ser um artista na Amazônia”, complementa.
Processo criativo reúne teatro e pesquisa científica
A partir dessa metáfora, Ítalo Rui convidou a dramaturga e atriz Pricilla Conserva. Dessa forma, surgiu uma narrativa que aborda território, memória, ancestralidade, luto e autoconhecimento.
A obra utiliza a linguagem do teatro de formas animadas, com criação e manipulação entre ator e bonecos. Embora seja um solo, o espetáculo apresenta seis personagens em cena, todos interpretados pelo próprio artista.
O projeto foi contemplado no Edital nº 07/2024 – Fomento à Execução de Ações Culturais de Teatro, da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas.
Imersão no MUSA e INPA fortalece criação

Para aprofundar a pesquisa, a equipe realizou atividades de campo ao lado de pesquisadores da Amazônia. Inicialmente, os artistas fizeram uma imersão no borboletário do MUSA. Em seguida, estudaram tartarugas no Centro de Estudos dos Quelônios da Amazônia (CEQUA), do INPA.
Durante um mês, acompanharam a rotina científica. Além de observar e tirar dúvidas, participaram de atividades práticas, como alimentação e cuidado com os animais.
“Apesar de que as perspectivas são muito diferentes, Italo e sua equipe são muito simpáticos e a interação foi muito positiva. Foi fácil encontrar pontos de convergência”, conta Gabriel Jorgewich Cohen, biólogo e pesquisador adjunto do Inpa.
No MUSA, os artistas acompanharam todo o ciclo das borboletas, desde a coleta de plantas hospedeiras até a metamorfose.
“Trazer eles pra essa convivência com a gente foi, foi acho que animado, empolgante, porque algo que é muito comum pra gente, mas para eles era novidade, eles ficavam maravilhados com cada processo”, conta Raymê Carvalho, bióloga responsável pelo Laboratório de Borboletas e o Borboletário do MUSA. “A gente nunca havia recebido uma proposta como essa, né? Achei muito bonito a partir do momento que a gente interliga ciência e arte. “A borboleta quando nasce é transformada em um ser tão lindo, então a ciência e a arte se interligam aí”, completa a pesquisadora.
Temporada gratuita em Manaus
“Borboletas bebem lágrimas de tartarugas” terá seis apresentações na temporada de estreia em Manaus, todas com entrada gratuita. Inclusive, duas sessões serão ao ar livre.
No Teatro da Instalação, a estreia ocorre no dia 16 de abril, com nova apresentação no dia 18, ambas às 19h.
Já no dia 17 de abril, o espetáculo será apresentado na Universidade do Estado do Amazonas (UEA), na Sala Selma Bustamante, da Escola de Artes e Turismo (ESAT), às 15h.
Além disso, no dia 22, o INPA recebe a montagem às 9h. Por fim, o MUSA terá duas sessões no dia 25 de abril, às 9h e às 15h.
Mais informações estão disponíveis no Instagram do artista @italorui.

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