O eleitorado indígena do Amazonas cresceu mais de 80% em apenas dois anos, saltando de 40.196 eleitores nas eleições municipais de 2024 para 73.775 pessoas aptas a votar em maio de 2026. O avanço, que reflete a maior autodeclaração de indígenas junto à Justiça Eleitoral, levou o Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) a expandir locais de votação em áreas remotas e intensificar atendimentos itinerantes nos locais mais distantes do estado.
Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o Amazonas registra atualmente 2.803.095 eleitores aptos ao voto. Desse total, 73.775 são indígenas autodeclarados, dos quais, 71.068 já realizaram o cadastramento biométrico. Conforme pesquisa recente do TSE, o estado concentra um dos maiores contingentes indígenas do país e está entre as unidades da Federação com maior presença dessa população.
A participação política é crescente em municípios como São Gabriel da Cachoeira, onde 91,5% do eleitorado é indígena, além de São Paulo de Olivença (81,2%) e Santa Isabel do Rio Negro (79,3%), segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Para atender a esse crescimento, o TRE-AM tem adotado medidas para reduzir barreiras geográficas e ampliar a participação dos povos originários no pleito eleitoral. Segundo a assessoria do tribunal, as ações incluem atendimentos itinerantes em aldeias, instalação de locais de votação mais próximos das comunidades e a atuação de um comitê intersetorial voltado ao fortalecimento da participação indígena no processo eleitoral.
A estratégia consiste em aproximar os serviços eleitorais da população indígena. Além dos mutirões para emissão, transferência e regularização de títulos eleitorais, a Justiça Eleitoral também criou seções e locais de votação em territórios indígenas ou em áreas próximas às comunidades, diminuindo a necessidade de longos deslocamentos até as sedes municipais.
De acordo com a Assessoria de Gestão de Eleições do TRE-AM, a criação de novos pontos de votação em regiões rurais indígenas tem contribuído diretamente para ampliar o acesso ao voto. Entre os locais instalados estão a Escola Municipal Indígena Ticuna Menecu, no município de São Paulo de Olivença; a Escola Municipal Sawá Pajé, na cidade de Canutama; e as Escolas Municipais Indígenas São Francisco e Kanamaris, as duas localizadas no município de Maraã.
Outro desafio enfrentado pelo tribunal é garantir que as informações eleitorais cheguem às comunidades respeitando suas especificidades culturais e linguísticas. Em diversas localidades, a comunicação ocorre com o apoio de lideranças indígenas, responsáveis por traduzir ou repassar orientações em suas línguas de origem. Cartórios eleitorais instalados em regiões com presença indígena também auxiliam na divulgação de informações sobre cadastramento biométrico, regularização eleitoral e funcionamento das eleições.
Tikúna e Kokama lideram eleitorado indígena
Entre os povos indígenas com maior representatividade eleitoral no Amazonas, os Tikúna aparecem em primeiro lugar, com 18.905 eleitores, o equivalente a 25,63% do eleitorado indígena do estado. Na sequência estão os Kokama, com 12.425 eleitores, representando 16,84%.
Também figuram entre os maiores grupos os Baré, com 5.554 eleitores; os Múra, com 5.187; os Apurinã, com 3.551; os Sateré-Mawé, com 3.541; os Yanomami, com 2.825; os Tukano, com 1.973; os Baniwa, com 1.688; os Munduruku, com 1.612; e os Kanamari, com 1.181 eleitores.
Cenário nacional revela potencial de crescimento
Levantamento divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral aponta que, até março deste ano, 253.270 brasileiros se autodeclararam indígenas perante a Justiça Eleitoral.
O estudo mostra que cerca de 70% da população indígena brasileira possui 15 anos ou mais, mas apenas 15% se autodeclararam indígenas nos registros eleitorais. A Justiça Eleitoral ressalta que o contingente de indígenas aptos ao voto pode ser maior, uma vez que muitos eleitores não informam sua identidade étnica durante o cadastramento.
A pesquisa também identificou uma lacuna significativa entre os jovens. Apesar de o eleitorado indígena ser predominantemente jovem, a faixa etária de 15 a 19 anos apresenta a maior diferença entre população e número de eleitores. Enquanto o Censo de 2022 contabilizou 161.846 indígenas nessa faixa etária, apenas 52.894 estavam inscritos para votar, o que representa uma cobertura de 32,6%.
O Amazonas aparece entre os estados com maior presença indígena do país. Segundo o estudo, os indígenas representam 12,46% da população amazonense, mas correspondem a apenas 1,81% do eleitorado estadual. O cenário reforça o desafio de ampliar o cadastramento e estimular a participação política dos povos originários, especialmente nas regiões mais isoladas da Amazônia.
Leia Mais:
Projeto fortalece defesa de populações indígenas e tradicionais do Amazonas
