O câncer gástrico é o segundo tipo de tumor mais incidente na região Norte do Brasil, atrás apenas do câncer de próstata, e a região apresenta a maior taxa de ocorrência da doença no país, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca).

Presença constante na alimentação amazônica, a farinha de mandioca frequentemente aparece no debate sobre os fatores associados ao câncer gástrico. No entanto, especialistas afirmam que não existem evidências científicas que comprovem uma relação direta entre o alimento e a doença.

O que os estudos apontam é que o câncer de estômago possui origem multifatorial e está relacionado a fatores como infecção pela bactéria Helicobacter pylori (H. pylori), tabagismo, consumo excessivo de álcool, obesidade, alimentação rica em ultraprocessados e predisposição genética.

O câncer gástrico se desenvolve nas células que revestem o interior do estômago. O adenocarcinoma responde por cerca de 95% dos casos e é considerado o tipo mais comum da doença. A infecção pela bactéria H. pylori é apontada atualmente como o principal fator de risco conhecido.

A hipótese que relaciona a farinha de mandioca ao câncer gástrico surgiu a partir de estudos que investigam possíveis fatores associados à elevada incidência da doença na região Norte, mas até o momento não foi comprovada uma relação de causa e efeito.

“O que sabemos é que existe uma forte relação do surgimento do câncer gástrico com hábitos alimentares e estilo de vida. Entre os fatores de risco comprovados estão tabagismo, alcoolismo, obesidade, infecção por H. pylori e dietas ricas em alimentos ultraprocessados, defumados, conservados e preparados na brasa”, afirmou a oncologista da Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas (FCECON), Poliana Signorini.

Frutas, verduras e legumes frescos atuam como fatores protetores. A redução do consumo de álcool, a interrupção do tabagismo, o controle do peso corporal e o tratamento da infecção pela H. pylori também ajudam a diminuir significativamente o risco da doença.

Bactéria é principal fator de risco conhecido

A Helicobacter pylori é uma bactéria que se instala na mucosa do estômago e pode provocar inflamações crônicas. Em alguns casos, esse processo evolui para gastrite atrófica, lesões precursoras do câncer e, posteriormente, para o tumor maligno gástrico.

A presença da bactéria não significa que uma pessoa necessariamente desenvolverá a doença. O risco depende da interação entre fatores genéticos, ambientais, alimentares e das condições de saúde de cada indivíduo.

Estudos realizados na Amazônia apontam uma presença significativa da bactéria entre pacientes diagnosticados com câncer gástrico. Uma pesquisa desenvolvida no Pará identificou a H. pylori em parte expressiva dos casos da doença, reforçando a importância do diagnóstico precoce e do tratamento adequado da infecção.

Foto: Reprodução

Farinha tem valor cultural, mas exige equilíbrio

A farinha de mandioca possui importância cultural, econômica e social para a Amazônia. Produzida por agricultores familiares e amplamente consumida com peixes e outros alimentos típicos, ela integra a identidade alimentar da região há séculos.

Do ponto de vista nutricional, é um alimento predominantemente energético, com alto teor de carboidratos e baixo conteúdo de proteínas, fibras, vitaminas e minerais.

“O problema não está 100% na farinha. O que pesa é o padrão alimentar. Quando ela é consumida em excesso e ocupa o espaço de frutas, verduras, legumes e outras fontes importantes de nutrientes, pode contribuir para ganho de peso e alterações metabólicas”, explicou a nutricionista e consultora de alimentos Glaucia Oliveira.

A especialista destaca que o alimento pode fazer parte de uma dieta equilibrada quando consumido com moderação e associado a fontes de proteína, frutas e vegetais.

Foto: Amazonastur

A nutricionista Raphaely Albino ressalta que a presença da farinha na alimentação amazônica está diretamente ligada a aspectos culturais e históricos. Segundo ela, a discussão não deve se concentrar em um alimento específico, mas na qualidade geral da alimentação.

Desigualdade ajuda a explicar cenário no Norte

As condições socioeconômicas também ajudam a explicar os elevados índices da doença na Região Norte.

Populações de menor renda frequentemente enfrentam dificuldades para acessar alimentos frescos e nutritivos, recorrendo com maior frequência a produtos industrializados, embutidos e conservas. A falta de saneamento básico adequado favorece infecções gastrointestinais, enquanto as dificuldades de acesso aos serviços de saúde podem atrasar tanto o diagnóstico da H. pylori quanto o início do tratamento.

Esse conjunto de fatores contribui para a manutenção de um cenário que favorece o desenvolvimento de doenças digestivas e dificulta a prevenção do câncer gástrico.

Foto: Divulgação/Idam

Quem deve ter mais atenção

Por possuir elevada concentração de carboidratos, a farinha deve ser consumida com cautela por pessoas com diabetes, obesidade, resistência à insulina ou que estejam em processo de emagrecimento.

“Em pacientes diabéticos, o consumo excessivo pode provocar aumento rápido da glicose. Por isso, o ideal é que a farinha seja consumida em pequenas quantidades e associada a fontes de proteína”, orientou a nutricionista Raphaely Albino.

O acompanhamento nutricional é importante para adequar as quantidades consumidas às necessidades individuais de cada paciente.

A prevenção e o diagnóstico precoce continuam sendo as principais estratégias para reduzir a mortalidade da doença.

Sintomas persistentes como dor abdominal, queimação frequente, sensação de estômago cheio, perda de peso sem explicação, dificuldade para se alimentar e desconfortos digestivos recorrentes devem ser investigados por um médico.

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