Sempre que analiso os dados do IBGE, uma realidade alarmante me chama a atenção como urologista: nós, homens, vivemos em média sete anos menos que as mulheres. A expectativa de vida da população masculina no Brasil é de apenas 72,2 anos, ao passo que as mulheres atingem os 79,3 anos. Esse abismo estatístico não é uma mera obra do acaso, mas sim o reflexo direto de um comportamento que precisamos mudar com urgência. Existem muitos fatores que justificam essa diferença, entretanto, há um motivo central e de amplo conhecimento que pesa muito mais nessa balança: nós, homens, simplesmente não vamos ao médico como deveríamos. Crescemos inseridos em uma cultura que não nos ensina a prevenir.
Desde a infância e a adolescência, as mulheres são incentivadas a realizar exames periódicos e a cuidar do próprio corpo, criando um hábito saudável que levam para o resto da vida. Conosco, o cenário é completamente oposto. Nós geralmente só procuramos um consultório médico quando o problema já está instalado e se tornou insuportável.
Basicamente, só buscamos ajuda profissional quando surge um sintoma ou um sinal físico que provoque um medo real. Passamos boa parte da juventude e da vida adulta acreditando piamente que estamos com a saúde blindada, ignorando que a ausência de dor nem sempre significa que está tudo bem lá dentro.
Por causa dessa negligência silenciosa, o consultório urológico muitas vezes se torna o lugar onde identificamos problemas de saúde em estágios avançados. Na medicina, sabemos perfeitamente que o diagnóstico tardio traz uma dificuldade muito maior para o sucesso de qualquer tratamento. A realização de exames preventivos de rotina é a principal arma que temos para combater doenças graves antes que elas ganhem terreno, mas muitos preferem dar as costas para essa realidade. Mas por que agimos assim? As respostas estão enterradas em barreiras culturais antigas. Fomos ensinados de que o homem deve ser um porto seguro inabalável, forte e invulnerável.
Mostrar sentimentos, admitir uma dor ou confessar que precisa de ajuda é visto, erroneamente, como um sinal de fraqueza. Esse orgulho bobo custa vidas. Alguns dados assustadores confirmam o tamanho desse panorama: seis em cada dez homens admitem que só procuram o médico quando os sintomas são extremamente fortes, e cerca de 31% da população masculina não tem o menor hábito de pisar em um hospital para fazer um check-up. Essa resistência em cuidar do corpo e da mente também se reflete na saúde mental, visto que os homens apresentam um risco 3,8 vezes maior de morte por suicídio quando comparados com as mulheres.
Precisamos quebrar esse ciclo de silêncio e negligência. Cuidar de si mesmo não diminui a masculinidade de ninguém; pelo contrário, é o maior ato de responsabilidade que podemos ter com nós mesmos e com as pessoas que nos amam. Nas próximas semanas, aproveitando o momento tão importante do Novembro Azul, pretendo usar este espaço para conversar de forma aberta, direta e sem tabus sobre as principais doenças que acometem o público masculino. Convido você a me acompanhar nessa jornada de conscientização, pois a prevenção continua sendo o caminho mais seguro para garantir o nosso futuro.

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