A criança acorda irritada, demora a se concentrar, perde a paciência diante de pequenas frustrações e parece ter energia de sobra justamente na hora de dormir. Diante desses comportamentos, pensamos em muitas explicações. Mas nem sempre fazemos uma pergunta simples: como anda o sono dessa criança?

Dormir não é apenas descansar depois de um dia cheio. Durante o sono, o cérebro participa da consolidação de informações e de processos importantes para a memória e a aprendizagem. Na infância, quando tantas habilidades estão em desenvolvimento, dormir bem é uma necessidade de saúde.

Uma revisão sistemática de Félix e Candeias (2025), que analisou 20 estudos com crianças de 6 a 12 anos, encontrou associações entre melhores padrões de sono, desempenho cognitivo mais favorável, bem-estar emocional e menos dificuldades comportamentais. Isso não significa que o sono seja a única explicação para essas diferenças, mas reforça sua importância no desenvolvimento infantil.

Na Neuropsicologia, atenção, memória e funções executivas são essenciais para aprender, organizar tarefas e regular emoções e comportamentos. Quando o sono é insuficiente ou de má qualidade, essas habilidades podem ser afetadas. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (2025), a privação de sono nem sempre provoca sonolência, podendo se manifestar por irritabilidade, agitação, desatenção e dificuldades escolares. Esses sinais têm diferentes causas, mas o sono é um aspecto importante a considerar.

Mas, afinal, quantas horas uma criança precisa dormir? De acordo com Paruthi e colaboradores (2016), da Academia Americana de Medicina do Sono, crianças de 1 a 2 anos precisam de 11 a 14 horas por dia; de 3 a 5 anos, 10 a 13 horas; de 6 a 12 anos, 9 a 12 horas; e adolescentes de 13 a 18 anos, 8 a 10 horas. Os períodos incluem cochilos, quando apropriados à idade, e devem ser considerados junto à qualidade e à regularidade do sono.

Além do relógio, vale observar como a criança desperta e se comporta ao longo do dia. Horários relativamente regulares, ambiente tranquilo e uma rotina de desaceleração antes de dormir ajudam a favorecer o descanso. Pequenas mudanças, feitas gradualmente e respeitando a realidade de cada família, podem melhorar os hábitos de sono.

Dificuldades persistentes para dormir, roncos habituais, pausas na respiração ou sonolência excessiva durante o dia merecem avaliação médica. Quando questões emocionais interferem no sono, o acompanhamento psicológico também pode ser indicado.

Cuidar do sono não significa exigir uma rotina perfeita ou transformar a hora de dormir em mais uma cobrança. Significa reconhecer que descansar também faz parte do desenvolvimento. Enquanto a criança dorme, seu cérebro continua ativo, e favorecer um sono adequado é também cuidar da aprendizagem, das emoções e da saúde.

Ana Claudia Pinto Oliveira é neuropsicóloga, diretora clínica do Instituto Desenvolver, com mestrado em Educação pela Universidade dos Pueblos de Europa; e pesquisadora do Laboratório de Avaliação Psicológica da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

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