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Criminalidade

“Volta no tempo”: facções relembram passado sombrio e usam decapitação como aviso

De acordo com o delegado da Polícia Civil do Amazonas (PC-AM0, Cícero Túlio, decapitação de Luciano Barbosa, o "L7", pode desencadear mais casos

Manaus (AM) – A presença intensa de milícias e facções do crime organizado na Amazônia se tornou destaque internacional em 2022, com a morte do indigenista brasileiro Bruno Pereira e o do jornalista inglês Dom Philllips. O assassinato foi destacado no Anuário Nacional de Segurança Pública, divulgado no dia 27 de junho deste ano.

Diante desse cenário, a Amazônia parece estar dominada por grandes organizações criminosas, que disputam territórios e o narcotráfico, além das principais vias de rotas nacionais e transnacionais do país, mesmo com a presença de forças da segurança pública. Quem é considerado rival desses grupos, pode sofrer retaliações e uma das punições mais praticadas pelos criminosos é a decapitação.

Histórico

A decapitação sempre foi uma forma de execução existente. Desde a antiguidade, essa prática é demonstrada como um ato de dominação e intolerância. Talvez o caso mais emblemático de decapitações tenha ocorrido durante a Revolução Francesa, no século XVIII, época em que foi criada a guilhotina, um instrumento que é constituído por uma grande e afiada lâmina que cai de determinada altura cortando a cabeça do indivíduo que fica apoiada na base. Aproximadamente 18 mil pessoas foram vítimas dessa barbárie e os juízes foram os primeiros a ser decapitados.

No Amazonas, essa prática também é antiga, muito usada pelo povo indígena Mundurukus, conhecidos no fim do século XVIII. Os líderes decapitavam seus inimigos com facões, conhecido popularmente como terçado, e penduravam as cabeças em varas em frente ao seu território, como demonstração de intolerância à presença de estranhos naquela região.

De acordo com o historiador Agnaldo Figueiredo, em Manaus, o crime de decapitação é notório há mais ou menos 10 anos, quando as facções começaram a praticar esse método para demonstrar a sua ira e dominação contra seus desafetos e rivais.

“Esse é um tipo de punição que causa suplício, dor, agonia. Inclusive, antes mesmo da presença das facções, aqui no Amazonas, pessoas comuns assassinaram seus inimigos e praticaram esse ato cruel e desumano como forma de demonstrar o seu ódio e seu desprezo, principalmente no caso das mulheres que sofriam essas punições por cometerem traições. Um desses crimes é lembrado até hoje e tem um memorial no bairro Aparecida: o saco do alferes. A vítima tinha um caso com a esposa de um açougueiro e foi decapitada e esquartejada pelo açougueiro”,

relata o historiador.

Segurança pública atenta

De acordo com o delegado da Polícia Civil do Amazonas (PC-AM), Cícero Túlio, existe um índice de crimes com grau elevado de brutalidade, entre eles, a decapitação. Segundo a autoridade, a prática é um problema para a população, principalmente quando é realizado por facções criminosas, que não distinguem idade e nem gênero.

“Por serem crimes que chamam bastante a atenção da sociedade, acabam por fomentar o medo da população e dá uma sensação de insegurança. Mas os órgãos de segurança pública têm feito o seu papel, têm se empenhado no sentido de tentar minorar a prática desses delitos”, explica o delegado.

Segundo Túlio, a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) tem receio de que essa prática venha se tornar comum e, para combater a criminalidade, existe uma equipe especializada e direcionada para investigar esse tipo de crime.

“Justamente por esse receio é que existe um empenho específico dos setores responsáveis pela investigação desses casos a fim de que haja a reprimenda de tirar de circulação essas pessoas que acabam causando esse mal à sociedade. O crime de homicídio qualificado pode pegar 30 anos de prisão”,

salienta.

Recentemente, Luciano da Silva Barbosa, de 32 anos, o “L7”, filho do narcotraficante José Roberto Fernandes Barbosa, o “Zé Roberto da Compensa”, foi brutalmente executado e decapitado por uma facção rival na comunidade Santa Maria, zona rural de Anamã (distante a 161 quilômetros de Manaus).

Em um vídeo que viralizou na internet, os desafetos de ‘L7’ comemoravam vitória e apontavam armas de fogo para a cabeça. O delegado Cícero Túlio explica que esse ato é um ‘recado’, tanto para outras facções criminosas rivais quanto para a segurança pública, no sentido de intimidar a sociedade.

“Acredito que deve haver um choque de ordem da segurança pública em relação a casos como esses para cessar de vez essas identidades criminosas que se apresentam com grande grau de brutalidade e ousadia. E acredita-se que com isso, outras facções criminosas venham praticar esse mesmo delito. Mas existe um trabalho de inteligência da SSP-AM para identificar possíveis casos de ataques nesse sentido. E, portanto, por ser um caso que chamou bastante atenção da mídia, da população e do próprio sistema se segurança pública, nós acreditamos que haverá outros crimes dessa natureza”,

afirma Túlio.

Casos recentes

No dia 19 de fevereiro deste ano, um homem não identificado foi encontrado por moradores da comunidade Santa Marta, na Colônia Terra Nova, Zona Norte de Manaus. O corpo estava decapitado e com 10 perfurações de arma branca (faca).

Em 9 de maio, dois corpos não identificados foram encontrados decapitados e com as mesmas marcas de violência em igarapés distintos da cidade. Uma das vítimas estava sem o braço direito e parte da perna direita, além de vários golpes de arma branca no peito e lado esquerdo do abdômen.

Já no dia 11 do mesmo mês, um pizzaiolo identificado como Jonatas de Souza Oliveira, de 23 anos, também foi degolado e jogado em um matagal da rua Nossa Senhora de Fátima, no bairro Santa Etelvina, Zona Norte de Manaus. Segundo a polícia, ele tinha envolvimento com facções, roubos e assaltos.

No dia 23 de junho, o mais caso mais recente e de maior repercussão: Luciano da Silva Barbosa, de 32 anos, o “L7”, filho do narcotraficante “Zé Roberto da Compensa”, foi brutalmente executado e degolado por criminosos. A cabeça nunca mais foi encontrada. Após o crime, a cabeça foi considerada como um “prêmio” para integrantes de facções ainda desconhecidas.

Nesse mesmo delito, Silviney Oliveira Araújo, o padrasto de ‘L7’, também foi alvo da ação criminosa e morreu executado com tiros. ‘L7’ era investigado por ordenar uma série de homicídios na cidade e a morte dele pode gerar retaliações por facções rivais, como comentou acima o delegado Cícero Túlio.

Para a advogada de criminalística Ana Claudia Andrade, esse tipo de crime é um atentado contra os direitos humanos e a sociedade como um todo. As mortes com decapitação contrariam todos os tratados internacionais dos direitos humanos, no qual o Brasil é signatário, nos termos do artigo 5º, que define o direito à vida como um direito supralegal.

“O nosso país faz parte dos tratados internacionais dos direitos humanos, que possuem a finalidade de proteger/fortalecer o maior bem, que é a vida e que está acima de qualquer circunstância”,

explica a advogada.

Andrade diz ainda que o Estado brasileiro negligencia o crime organizado. Ainda segundo a advogada, o crime é tão organizado, que suas decisões são condutas partidárias políticas, vinculadas ao sistema político brasileiro, afirmação esta que concorda com o texto inserido no Anuário Nacional de Segurança Pública.

“A Amazônia como um todo parece dominada pela lógica dos grupos armados criminosos e, mesmo com as estruturas policiais e militares existentes, que são capazes de atuar quando adequadamente mobilizadas, quem parece organizar a vida da população nela residente é o crime organizado, que vai corrompendo e ocupando a economia, a política e o cotidiano da região”,

diz o texto do documento divulgado no final de junho.

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