A prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos acendeu um alerta no Brasil sobre possíveis impactos na fronteira com Roraima, incluindo o risco de entrada de narcotraficantes junto ao fluxo migratório. A preocupação é que esses grupos se concentrem no Amazonas — corredor do tráfico — e alimentem disputas entre facções brasileiras e estrangeiras.

O Ministério Público de Roraima revelou que, no primeiro semestre de 2018, havia 77 presos venezuelanos no estado. No mesmo período de 2024, o número saltou para 389 e, em dezembro daquele ano, chegou a 414. Segundo a investigação, entre os presos estão integrantes de facções criminosas do país vizinho.

A Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) informou que, atualmente, 34 internos estrangeiros com nacionalidade venezuelana encontram-se custodiados no sistema penitenciário do Amazonas.

A atuação defacções estrangeiras no Brasil já é uma realidade em Roraima e começa a deixar rastros em outros três estados: Santa Catarina, Paraná e Amazonas, segundo revelou a Agência Pública. O grupo Trem de Aragua deixou de agir apenas na região de fronteira e passou a avançar, gradualmente, sobre o território brasileiro.

Trem de Aragua

Foto: Reprodução

O especialista em segurança pública coronel Amadeu Soares afirmou ao Em Tempo que a atuação dos narcotraficantes do Trem de Aragua é uma ameaça real, agravada pela vulnerabilidade das fronteiras do Amazonas.

As fronteiras do Amazonas no Alto Solimões e no Alto Rio Negro apresentam um ambiente propício para abrigar criminosos e narcoterroristas, como os do Trem de Aragua, pela grandiosidade da fronteira e suas características geográficas, além de nenhum controle de fronteira“, explica.

O grupo criminoso é conhecido pela violência associada à sua expansão territorial no Brasil, cometendo crimes que incluem até o esquartejamento de inimigos ou de quem desrespeita suas regras. Atualmente, o Trem de Aragua domina bairros em Boa Vista, como 13 de Setembro, Tancredo Neves, Buritis, Caimbé, Liberdade e Asa Branca, além de controlar acampamentos montados pela Operação Acolhida.

Com esse avanço dentro do Brasil, impulsionado também pela ação dos Estados Unidos na Venezuela, cresce a preocupação de que narcotraficantes recrutem migrantes em situação de vulnerabilidade social para atuarem no tráfico no Amazonas.

Como essa facção atua na Venezuela e aqui no Amazonas, é possível sim essa cooptação pela ameaça ou intimidação do imigrante por meio dos familiares que estão na Venezuela. As autoridades federais devem manter um acompanhamento desses movimentos, inclusive utilizando cooperação internacional, porque se a repressão aumentar, a tendência é eles virem para onde essa repressão estiver menos intensa“, destacou Amadeu Soares.

Repressão

Foto: Arquivo/ Secom

Com a constante disputa por territórios entre facções brasileiras, a expansão do Trem de Aragua no país preocupa, pois o grupo pode tentar tomar áreas já controladas por facções locais. Para o coronel Amadeu Soares, o risco é real.

Risco existe, mas, por hora, aqui no Amazonas ainda não há indícios de que isso tenha acontecido, porque, quando isso acontece, o resultado são conflitos violentos“, disse.

Para o especialista, a única forma de controlar a atuação de grupos criminosos nas fronteiras brasileiras, sem criminalizar ou estigmatizar migrantes e refugiados, é reforçar a segurança nacional. Isso porque, junto a possíveis narcotraficantes, chegam ao país venezuelanos que fogem da crise econômica em seu país.

Um controle bem efetivo na fronteira, que hoje não existe pela falta de atitude da União e também devido ao tamanho e à complexidade da fronteira seca, leis mais duras para esses tipos criminais“, opinou.

Como medida de repressão, o Governo do Amazonas informou que, até outubro de 2025, investiu mais de R$ 1 bilhão em ações que unem tecnologia, mobilidade policial e valorização dos profissionais de segurança, resultando em prejuízos ao crime organizado, maior presença do Estado e redução dos principais indicadores de criminalidade em todo o estado.

A Operação Protetor AM, antiga Operação Hórus, gerou um prejuízo estimado de R$ 3,99 bilhões ao crime organizado, demonstrando a eficácia das ações integradas nas divisas e fronteiras e contribuindo diretamente para a proteção das comunidades e a redução da criminalidade.

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