No silêncio do consultório, longe dos holofotes e das conversas de bar, ouço com frequência uma dúvida que paira sobre a cabeça de muitos homens: “Doutor, minha vida sexual tem alguma relação direta com a saúde da minha próstata?”. É uma pergunta legítima e necessária. Afinal, a sexualidade é um dos pilares da qualidade de vida masculina, mas ainda é cercada por uma densa neblina de mitos, medos e, por vezes, desinformação.

Existe uma crença comum de que a capacidade de manter uma boa ereção estaria intrinsecamente ligada à saúde da próstata. Quero começar este artigo esclarecendo um ponto fundamental: na prática, essa relação direta não ocorre da forma como muitos imaginam. O que acontece é uma coincidência cronológica. As doenças da próstata costumam se manifestar com mais frequência na mesma fase da vida em que o homem naturalmente começa a notar alterações em sua resposta sexual. Por estarem no “mesmo calendário”, as duas coisas acabam sendo associadas injustamente.

Mas e sobre a prevenção? É aqui que a ciência moderna traz notícias que costumam surpreender os pacientes. Um dos mitos mais persistentes é o de que o excesso de atividade sexual poderia “desgastar” a próstata ou até causar câncer. A ciência aponta exatamente para o caminho oposto.

Um estudo emblemático da Universidade de Harvard, publicado em 2022, trouxe dados fascinantes. A pesquisa sugeriu que uma frequência maior de ejaculação está associada a um risco menor de desenvolvimento do câncer de próstata. Os números são expressivos: homens que relataram mais de 21 ejaculações por mês apresentaram uma redução de 31% no risco de desenvolver a doença. A teoria por trás disso é o que chamamos de “limpeza da glândula”: a ejaculação frequente ajudaria a eliminar toxinas e secreções que, se acumuladas, poderiam favorecer a inflamação ou mutações celulares.

No entanto, como médico, meu papel é analisar esses dados com cautela e responsabilidade. Essa proteção observada no estudo de Harvard parece ser mais eficaz para os tipos de câncer menos agressivos. Isso significa que a frequência ejaculatória, embora benéfica, não é um “escudo mágico” contra os tumores mais graves e, de forma alguma, substitui os cuidados preventivos que já conhecemos.

O que eu sempre digo aos meus pacientes é que a saúde não é feita de um único hábito, mas de um ecossistema. Ter uma vida sexual ativa e saudável é excelente, mas ela deve caminhar lado a lado com uma dieta equilibrada, a prática regular de exercícios físicos e o controle rigoroso do peso. Estes, sim, são fatores comprovadamente eficazes na prevenção de inúmeras doenças, inclusive o câncer.

Precisamos de mais estudos para cravar uma relação matemática entre o número de ejaculações e a imunidade da próstata, mas uma coisa é certa: a ideia de que “muito sexo faz mal” é coisa do passado. O sexo seguro e prazeroso é saúde.

Meu conselho final para você que nos lê: não deixe que os mitos o afastem do urologista. A prevenção é a nossa ferramenta mais poderosa.

Flavio Antunes – urologista

Leia mais: