A morte do motociclista Renato Teixeira de Jesus, 38, em maio deste ano, atropelado por um micro-ônibus no bairro Nova Esperança, Zona Oeste de Manaus, escancara uma realidade que os números já alertavam há meses: o trânsito da capital amazonense está cada vez mais letal, principalmente para quem se desloca de motocicleta.

Câmeras de segurança registraram o momento em que o micro-ônibus, que trafegava pela faixa da esquerda, fez uma conversão brusca à direita sem sinalizar e atingiu Renato. Ele morreu ainda no local, vítima de traumatismo cranioencefálico grave e múltiplas fraturas no crânio. O motorista fugiu sem prestar socorro.

O caso está longe de ser isolado, entre janeiro e maio de 2026, Manaus registrou 110 mortes no trânsito, aumento de 46,7% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram contabilizadas 75 vítimas fatais, segundo dados do Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU). Março foi o mês mais violento, com 25 mortes.

Motociclistas: os mais expostos ao risco

Foto: Reprodução

Dos 89 mortos no primeiro quadrimestre deste ano, 43 eram motociclistas, (48% do total). Em comparação com 2025, quando 30 motociclistas morreram no mesmo período, o aumento foi de 40%.

Os pedestres aparecem em seguida, com 27 vítimas, o equivalente a 30% dos óbitos. Juntos, motociclistas e pedestres representam 79% das mortes no trânsito registradas em Manaus nos quatro primeiros meses de 2026.

A pressão sobre o sistema de saúde também cresceu. Apenas entre os dias 1º e 19 de maio, 960 vítimas de acidentes com motocicletas deram entrada na rede pública do Amazonas, o que corresponde a 63,9% dos 1.560 atendimentos relacionados a acidentes de trânsito no período. Em abril, foram 1.551 ocorrências envolvendo motos, de um total de 2.421 atendimentos.

O reflexo é direto nos hospitais: cerca de 75% dos leitos públicos estão atualmente ocupados por vítimas de acidentes de trânsito.

A profissional de serviços gerais Vanessa Silveira já sofreu um acidente em um cruzamento da avenida Noel Nutels, zona Norte de Manaus, nas proximidades do Shopping Sumaúma, uma das vias mais perigosas da cidade, com 16 mortes registradas nos últimos dois anos.

Vanessa voltava para casa em sua motocicleta quando parou em um cruzamento para fazer uma conversão à esquerda. Ao lado dela, um carro realizou a mesma manobra sem sinalizar.

“Quando vi que dava para atravessar, porque não tinha sinalização, fiz a dobra. Mas, ao mesmo tempo, o carro também dobrou e me atingiu. Minha moto caiu e eu fui ao chão, muito assustada”, relatou.

Além do trauma, ela teve prejuízo financeiro. Segundo Vanessa, a motorista alegou não tê-la visto e atribuiu a culpa do acidente à motociclista.

“Tenho certeza de que não estava errada. Cheguei ao cruzamento antes do carro e estava com o pisca ligado indicando a conversão. Mesmo assim, tive que pagar o arranhão e a pintura do carro. Foram quase R$ 2 mil de prejuízo”, contou.

Desde então, a relação dela com o trânsito mudou. “Não tenho mais vontade de andar de moto. Eu só usava para buscar meu filho na escola e ir ao comércio, mas ainda preciso dela porque é meu único meio de transporte e o mais acessível. Hoje sinto medo e ansiedade, principalmente porque já caí outras vezes por causa das condições da rua e da pista molhada”, desabafou.

Infraestrutura precária e imprudência

Para o especialista em mobilidade urbana Manoel Paiva, o problema envolve tanto falhas estruturais quanto comportamentos imprudentes no trânsito.

“As interseções viárias apresentam deficiências graves, como sinalização inadequada, problemas geométricos, conservação precária da pista, drenagem insuficiente, iluminação deficiente e ausência de calçadas acessíveis para pedestres”, explicou.

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Segundo ele, entre os erros mais comuns de motoristas e motociclistas em Manaus estão o desrespeito à sinalização, excesso de velocidade, imprudência e a falta de educação no trânsito.

“Tudo isso se agrava pela ausência de agentes municipais para orientar, organizar e fiscalizar o fluxo de veículos e pedestres”, completou.

O especialista também aponta a dependência crescente da motocicleta como parte estrutural do problema.

“A motocicleta se tornou o principal meio de transporte em grande parte das cidades brasileiras. Em muitos municípios do Amazonas, elas representam mais de 70% da frota circulante”, afirmou.

Em Manaus, as motos já correspondem a 35% da frota registrada pelo Detran-AM até o primeiro trimestre de 2026.

Como solução, o especialista defende o fortalecimento do chamado “tripé da mobilidade”: planejamento e engenharia viária, fiscalização eficiente e educação permanente para o trânsito.

Fiscalização

Foto: IMMU

Entre os dias 15 e 18 de maio, a Operação Segurança Presente, do Departamento Estadual de Trânsito do Amazonas (Detran-AM), registrou 728 infrações em diferentes zonas de Manaus e na rodovia AM-070. 60% das irregularidades envolveram motocicletas.

As infrações mais frequentes foram conduzir moto sem capacete (68 casos), transportar passageiro sem capacete (54), dirigir sem habilitação (49), usar calçado inadequado (47) e circular sem equipamento obrigatório (43). Também foram registrados 30 casos de direção sob efeito de álcool e 28 recusas ao teste do bafômetro.

Dados acumulados de 2024 a 2026 do IMMU apontam as vias mais perigosas da capital. A rodovia Torquato Tapajós lidera o ranking, com 36 mortes, seguida pelo Rodoanel Metropolitano (31). As avenidas Governador José Lindoso e Autaz Mirim aparecem empatadas, com 26 vítimas fatais cada.

A zona Norte concentra o maior número de mortes, com 27 registros, 30% do total da capital. Já as zonas Leste e Centro-Sul somam 41 óbitos, o equivalente a 48% das ocorrências.

Conscientização

Segundo Manoel Paiva, campanhas pontuais não bastam para mudar a realidade. Ele enfatiza que o país ainda carece de educação efetiva para o trânsito, ampliação da fiscalização tecnológica, com radares, videomonitoramento e inteligência artificial, além de planejamento urbano voltado à mobilidade segura e integração entre os órgãos municipais, estaduais e federais responsáveis pelo trânsito.

A equipe de reportagem do Em Tempo procurou o IMMU para esclarecer quais investimentos estão sendo realizados em sinalização viária e ações de fiscalização voltadas à redução de acidentes de trânsito na capital. Até o fechamento desta reportagem, não houve retorno do órgão.

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