Aderson Santos da Frota é uma das principais lideranças empresariais do Amazonas e uma referência nacional na defesa do setor terciário. Aos 77 anos, o presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Amazonas (Fecomércio-AM), construiu uma trajetória de mais de cinco décadas dedicada ao fortalecimento do comércio, dos serviços e do turismo no estado.
Natural de Boca do Acre (AM), é formado em Direito pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Atuou como advogado por 16 anos antes de direcionar sua carreira para o empreendedorismo, área na qual consolidou sua atuação como empresário e representante institucional do setor produtivo.
Defensor do papel estratégico do comércio para o desenvolvimento econômico e social, Frota destaca a importância do segmento na geração de empregos, no abastecimento da população e na arrecadação que sustenta os serviços públicos. Em entrevista ao Em Tempo, ele fala sobre o cenário atual do comércio, discute os impactos da proposta de redução da jornada de trabalho e avalia os desafios da economia brasileira e amazonense.
EM TEMPO – Como o senhor avalia o momento atual do comércio em Manaus e quais fatores mais influenciam, hoje, o desempenho do setor?
ADERSON FROTA – A alta dos juros bancários atinge e vulnerabiliza a empresa e também o consumidor. Não obstante tudo isso, o que temos assistido, no momento atual do comércio, através das datas comerciais comemorativas é que os resultados são positivos. Os empresários avaliam de forma positiva, com crescimento e com desempenho de contratações de novos empregos, o que representa naturalmente um fator muito positivo em relação ao atual momento do comercio em Manaus.
ET – Qual a expectativa da Fecomércio-AM em relação à geração de empregos e ao aumento das vendas até o fim de 2026?
AF – Tradicionalmente, o segundo semestre é melhor do que o primeiro. Primeiro, porque o volume de chuvas diminui e esse ano nós tivemos um volume de chuva muito grande, o que atrapalha a movimentação da população, atrapalha o tráfego de modo geral com grandes massas de congestionamento. Mas, nós temos visto que sempre que fazemos avaliações das datas comemorativas recebemos informações que vêm com mensagens positivas, otimistas e aumento das vendas que acontecem. Agora, nós estamos ingressando no segundo semestre de 2026 e é quem tem o calendário mais diverso, mais completo, importante, que é o dia das crianças, que é a terceira maior data, o dia dos pais, o natal que é o ápice da data mais importante e tudo indica que vamos ter realmente um desempenho positivo.
ET – O senhor é favorável ao fim da escala 6×1?
AF – O nosso segmento que engloba comércio, serviços e turismo tem formatos totalmente distintos. Então, para uns a redução da jornada não atrapalha em nada. Mas para outros setores tem uma repercussão muito negativa. Vai atrapalhar as vendas, vai dificultar o atendimento da população, vai aumentar o custo das empresas, e isso realmente preocupa porque se reduz a jornada, automaticamente teria que contratar mais dois colaboradores para cobrir a lacuna e isso aumenta o custo da mercadoria, deságua nos preços e isso afeta a população menos protegida. Essa é uma das preocupações.
O que a regra manda é que não se pode distribuir benefícios sem aumento da produtividade. Hoje, o trabalhador reduzido ele fica com cinco dias, 40 horas. De preferência, a própria indicativa é que a folga seja no domingo. No domingo, os supermercados, os pequenos varejistas de alimentos que têm produtos que são comprados no final da semana, os shoppings, serão afetados por essa redução. Isso nos preocupa porque a redução da jornada implica em contratação de novos colaboradores que vão gerar despesas e essas despesas vão recair sobre os preços e isso atinge uma parte da população.
ET – Como o senhor avalia os impactos dessa mudança para trabalhadores e empresários?
AF – Os empresários não são contra qualquer tipo de benefício que possa beneficiar o seu colaborador. A nossa relação com os colaboradores é muito positiva, relação familiar, super simpática e harmoniosa e isso não nos atinge. O que nos atinge é por exemplo: os vendedores que trabalham com comissão, eles tem que perder um dia de trabalho e isso vai repercutir no seu rendimento em termos de salário. Isso é uma das preocupações. A outra, é que temos ainda um formato de relação trabalhista que está praticamente com mais de 80 anos. A sociedade mudou, as famílias mudaram, o mercado de trabalho mudou e isso exige que a gente refaça de forma muito inteligente um novo modelo, formato de contrato de trabalho onde prevalece o que vai ser ajustado entre a empresa e o colaborador para que haja um equilíbrio de benefícios, de interesses, benefícios que atendam não só o funcionamento da empresa para atender a população, mas também em relação ao ganho do próprio colaborador.
ET – Como encontrar equilíbrio entre a saúde mental e o descanso do trabalhador sem comprometer a competitividade das empresas?
AF – Temos que focar na realidade com muita precisão. O que é mais importante? Ele descansar ou ele ganhar mais? Ou ele ter renda melhor? Hoje, em termos trabalhistas dentro do formato da CLT, de cada um mil reais que o trabalhador ganha de salário, ele custa mais R$1.200 (de encargos) e ele só recebe R$920 pelo atual regime. Nós queremos alterar esse panorama, criar uma modificação de todo esse arcabouço jurídico que está superado já tem mais de 80 anos. Nós temos que copiar modelos que todo mundo quer participar. Por que todos querem ir trabalhar nos EUA? Porque lá ganha por hora. O trabalhador quer botar o resultado do seu suor no seu bolso para proporcionar garantia, bem-estar para a família, qualidade de vida. Isso é importantíssimo. Lá (EUA) ele não tem o custo que tem no Brasil. Precisamos resolver isso em proveito do nosso trabalhador.
ET – Caso a escala 6×1 seja aprovada por lei, o setor empresarial está preparado para adaptar contratos, jornadas e quadro de funcionários?
AF – O comércio tem várias fisionomias, algumas atividades funcionam especificamente aos finais de semana e isso complica. Já temos atividades que o trabalhador extrapola as 40 horas trabalhando por uma necessidade do próprio exercício da jornada, então, isso tudo precisa ser muito bem colocado para que a gente possa fazer um padrão de decisões equilibradas, não só que premie o trabalhador, mas que também não desorganize a empresa porque se a empresa se enfraquece ela acaba gerando desemprego como consequência e isso é um fator que nos preocupa.
ET – Como a alta dos preços e o endividamento das famílias têm impactado o consumo no Amazonas?
AF – O Brasil inteiro está vivendo um índice de inadimplência assustador. Quase 90% das famílias estão impactadas pela inadimplência e pela negatividade em seus cadastros. Isso preocupa porque desorganiza a vida do trabalhador, cria o endividamento muito grande das famílias, gera impacto no funcionamento das empresas. É motivo de desorganização. Estamos vivendo juros muito altos estabelecido pelo Banco Central para conter a inflação e até certo ponto isso tem razão de ser, mas isso desorganiza a economia, o próprio funcionamento das empresas que não têm como absorver juros tão elevados e isso precisa ser visto com muita responsabilidade para que a gente possa produzir os resultados que equilibrem a economia, a geração de empregos, o ganho do trabalhador.
ET – O senhor acredita que o consumidor está mais exigente? O que mudou no perfil de compra nos últimos anos?
AF – A Fecomércio, em todas datas comemorativas, faz uma pesquisa com antecedência de dois meses para mapear tudo o que o consumidor tem como expectativa, o que quer comprar, onde prefere comprar, quanto quer gastar, como vai pagar. E hoje, o consumidor nos abastece com uma percepção que antes não tinha. Hoje, o consumidor vê o custo do combustível, a dificuldade do trânsito, do estacionamento, e acima de tudo, ele vê o fator chamado segurança pública. A prova é que hoje as lojas do centro comecial de Manaus começam a fechar às 16h30 e automaticamente à medida que as lojas vão fechando vão aparecendo os catadores de embalagens, os moradores de rua e naturalmente, os usuários de drogas. Então, isso tudo é preocupante e a gente precisa colocar isso em pauta para ver como vamos resolver essas pendências, como vamos harmonizar esse problema de tal maneira que a gente possa construir um modelo.

ET – Qual a participação do comércio na economia do estado?
AF – Hoje, o comércio tem uma responsabilidade, uma participação expressiva na economia. O comércio hoje é quem mais arrecada em termos de impostos para o governo. O comércio é quem emprega mais de 70% do mercado de trabalho. Somos os maiores empregadores. Empregamos cinco vezes mais do que o próprio distrito industrial. Gera mais emprego, renda qualidade de vida.
ET – A qualificação da mão de obra é uma preocupação constante do comércio. O que falta para aproximar jovens das oportunidades no setor?
AF – A qualificação da mão de obra é um fator super importante. Muitos empresários têm manifestado preocupação sobre isso, relatando que está ficando difícil selecionar pessoas qualificadas porque existe uma série de vantagens que contornam o mercado que às vezes desfocam o trabalhador da necessidade de ele se qualificar para que possa acessar salários maiores, para que ele possa ter qualidade de vida melhor, e acontece que essas facilidades, essas concessões, desfocam, desconcentram o trabalhador de modo geral. Então, precisamos, após esse momento político, sentar com clareza e mostrar onde se vai colocar a solução mais adequada. Onde realmente vamos premiar o trabalhador e naturalmente garantir a estabilidade da empresa porque sem essa garantia o emprego está em risco e isso não passa pela nossa cabeça entrar em uma jornada dessa que possa prejudicar o trabalhador e depois fazer a falência da empresa.
ET – Qual é a principal agenda que a Fecomércio-AM pretende defender nos próximos anos para fortalecer o comércio, os serviços e o turismo no Amazonas?
AF – O nosso segmento hoje é o que tem a maior participação na economia. Somos quase 60% da arrecadação de impostos que o governo arrecada. A responsabilidade é muito grande, mas precisamos mudar o tratamento fiscal. O comércio paga imposto antecipado, antes de receber a mercadoria, antes de sequer vendê-la. Isso tudo precisa estar mapeado na mesa que se vai conversar sobre essas soluções e a Fecomércio tem papel super importante.
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